2009-01-03

aqui há pardal





















Que bem começa o ano!


Pois este é um post “obrigaDitos” caseiro, dedicado a Ditosos de eleição:


-Ao jmco, pelo despique do tema e valiosos acrescentos!


HFM, pelos bem aguarelados votos, coloridamente retribuídos!!


-E à mafY, pela lembrança inicial e preciosas reminiscências adicionais!!!


E um obrigaDito mais geral por tanta e tão boa companhia blogueira ;->>>


Mas vamos então ao “pardal”, com o socorro utilitário do admirável Borda d’Água.


Tanto quanto consegue apurar um mortal urbano (em demasia, mas em processo de alguma recuperação, he he…) há várias formulações arreigadas por esse belo país fora, com subtis variações consoante a região ou a ocasião.


Senão, vejamos, sobre o recomeço do crescimento dos dias, vincando o modestíssimo ritmo inicial:


- «Até ao fim do Natal crescem os dias num saltinho de pardal.»


- «Passado o Natal, crescem os dias um biquinho de pardal.»


As expressões “saltinho” e “biquinho”, já portuguesmente diminuitivadas, referem-se mais a mais ao pardal, ao simples e pequeno pardalito, confinando a dimensão do aumento dos dias a algo marcadamente ténue, quase imperceptível em extensão, mas que não passa despercebido à atenção – a percepção capta o movimento, embora diminuto!


Esta é a riqueza idiossincrática das línguas e em especial dos proverbiais jametinhaDitos populares, que recorrem a analogias fabulosamente expressivas, transmitindo exemplarmente uma ideia ou imagem, de modo poético e eficaz. Há lá melhor?


Mas se o “salto” de pardal está mais generalizado nas diferentes formulações, lembremos que «Pelo Natal bico de pardal, vai ao laranjal.», e entramos na diversidade de significações.


Quando se ouve «Os dias do Natal são saltos de pardal.», além da ideia da curta duração dos dias nesta época do ano (no hemisfério Norte) perpassa também a noção de que é breve a Quadra Festiva, quer relativamente às festas propriamente ditas, quer quanto aos sentimentos que depressa se esquecem, como que denunciando ou reclamando que a atitude de dádiva deveria perpetuar-se ou perdurar ao longo do ano em vez de se confinar a um número limitado de dias festivos.


Também não tem só a ver com a duração do dia ou do reinício do seu crescimento.


Mas continua a ter a ver com ciclos e a relacionar-se com a percepção exacta dos ciclos naturais e humanos.


Mais alguns exemplos, ora referidos aos dias curtos ou a como crescem um pedacinho após o solstício de Inverno, ora a como o tempo se escoa depressa:


- «Noite de natal saltinho de pardal» (Borda d’Água)


- «Até ao fim do Natal, crescem os dias um saltinho de pardal»


- «Depois do Natal, saltinho de pardal»- «De Santa Luzia (13 de Dezembro) ao Natal, um salto de pardal, de Natal a Janeiro, um salto de carneiro» - é verdade, parece que demora menos a chegar ao Natal, face à ânsia e aos não raro árduos preparativos, que a sair dos exageros típicos das festas…


- «Dos Santos ao Natal, salto de pardal»


- «Até ao Natal salto de pardal, de Natal a Janeiro salto de carneiro e de Janeiro a Fevereiro salto de outeiro»


Depois surge outro tipo de significados, naturalmente aproveitando à ideia essencial dos provérbios populares.


Quando alguém diz «Até ao Natal um saltinho de pardal.» refere-se à rapidez da passagem do tempo, ou seja, num instante passam os dias que faltam, é um ápice que a todos surpreende!


A todos? Bem, os mais antigos e mui sabedores (as Mães, pois então!) são a honrosa excepção, com todo o mérito e para orgulho de quem apreende o valor fundamental da genuinidade…


E assim, por extensão, a tudo o que se chega mais depressa do que se imagina, pode adaptar-se a expressão, como nestes casos, referidos a distâncias físicas:


- «Daqui a Boticas é um saltinho de pardal»


- «Não muito longe, a um saltinho de pardal»


Ou neste:


- «“Noites com poemas - da Biologia à Poesia, um saltinho de pardal” - Jorge Castro», em que se anuncia um programa e se exprime a ideia de que os assuntos se interligam bem mais que seria de esperar.


E também serve à política:


- «É que daí à legitimação da política israelo-americana para o médio-oriente vai um saltinho de pardal»


Mas o melhor é fugir das diatribes político-partidárias:


- «Do PSD que repudia Santana Lopes ao que o volta a indicar para cargos de responsabilidade vai um salto de pardal que não tira sono a Manuela Ferreira Leite»


Enfim, mudando de assunto sim, como vão cinzentos estes dias, há demasiado tempo sem sol, e para afastar as neuroses tanto como para incentivar ao regresso da luminosidade, o Ditos bloga em oferenda o solinho tal como da última vez que por cá apareceu, no luminoso dia de Natal


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e muntóbrigaDitos !!!



PS – Intrigante é a expressão «Do Natal à Sta. Luzia, cresce um palmo em cada dia.» … Curiosamente, a protectora dos olhos também é denominada Santa Lúcia, sempre evidenciando o matricial “luz” (como aliás em Lúcifer, mas isso é outra história) e se relaciona apropriadamente com o tema do renascimento da luz; e o dia 13 de Dezembro já foi noutra altura do ano, antes da reformulação do calendário para o modelo gregoriano que actualmente usamos, com um diferencial acumulado de 13 dias em relação ao calendário juliano, além de outras diferenças que foram ocorrendo ao longo dos séculos… assunto para outras pesquisas, conversas e, quem sabe, jametinhasditos!








observações são bem vindas
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4 comentários:

Anónimo disse...

Um obrigado, António, pelas suas divagações sobre o crescimento dos dias. Gostaria apenas de deixar claro que, pessoalmente, acho o biquinho de pardal uma delícia, embora estivesse familiarizado com a outra forma. Não há uma errada e outra certa. O que ocorre é um saudável acréscimo do conhecimento dos nossos ditos populares.
E, por ora, deixemos os pardalitos voar. Não há nada como a liberdade de um voo.
E, naturalmente, votos de um bom ano para os voos da ditosa.
jmco (/zmco)

mafY disse...

Mas que lindo Sol....que saudade,já! Mas onde é que ele brilha assim?
Sou nova nestas conversas blogueiras e uma coisa é certa: uma pessoa perde-se no tempo!! Quanta e preciosa partilha, assim, num salto de pardalito!
Só pode ser bom presságio para ínicio de ano.
Aqui reforço os votos de BOM 2009.

hfm disse...

Obrigada pelos votos e por este post que li com um sorriso de ternura; fez-me lembrar um dito de minha mãe:

"depois do Menino nascer tudo a crescer".

Um abraço

Sofá Amarelo disse...

Gostei do muntóbrigaDitos... além de outras sábias dissertações sobre o Natal, pseudos-natais e bordas de água que por acaso ainda se imprime às centenas de milhar e me trazem à lembrança os meus avós, fiéis consultores da «bíblia» agrícola que era o Borda d'água! Agora, cadê a agricultura? parece que só uns quantos agricultores no Alentejo se safam cultivando cevada para cerveja... mudam-se os tempos, mudam-se os copos...

Um forte abraço!!! Continuação de um ano especial!!!