2007-11-14

andem bem

a edição de ontem, 13 de Novembro de 2007, do “Meia Hora” trazia, pela mão da Direcção, um desafio ao leitor: CONSIDERA QUE O APARECIMENTO DOS JORNAIS GRATUITOS CONTRIBUÍRAM PARA QUE MAIS PESSOAS ANDEM INFORMADAS? (sic¸ maiúsculas incluídas)

o tema em si é interessante, actual e oportuno, pese embora alguma repetição sobre o assunto, pois todos os lançamentos de jornais gratuitos têm caído na fraqueza de filosofar, embora amiúde confinando o âmbito da investigação metafísica àquela exacta questão ou à sua pura e simples formulação afirmativa

numa breve experiência junto de alguns leitores, a pergunta transcrita nada mais suscitou além de um breve assentimento verbal ou ligeiro aceno concordante

só chamados à atenção repararam na falta de concordância verbal: ou bem se pergunta se “os jornais gratuitos contribuíram...” ou se “o aparecimento contribuiu...”

o emprego do verbo no plural está errado – o que em si não merece especial reparo, nem mesmo por o jornal se auto intitular de referência, porquanto não sabemos o que afinal lhe servirá de referência; o que inquieta é a expressiva indiferença que este tipo de questões crescentemente suscita, aos profissionais da imprensa (ia dizer da comunicação social mas aqui o negócio é outro) e aos leitores...

sem se livrarem de um jametinhasdito!, fica para outra ocasião o emprego de maiúsculas, que não corresponde ao estilo do jornal, e o “andem informadas”...



observacões são bem vindas



PS - já agora, na panóplia de gratuitos (sendo que o universo de gratuitos é bem mais amplo que os que são distribuídos em papel) o Meia Hora é de facto equilibrado, com moderação na agressividade da publicidade

e se não tem leitura para meia hora, há que reconhecer que tem artigos de interesse - os minutos que lhe são dedicados, quando calha, nem são mal empregues


PS2 - quanto ao efeito dos gratuitos sobre o nível de informação dos cidadãos (urbanos) a resposta poderá completar a pergunta: além de gratuitos, estes novos jornais são pro-activamente disponibilizados aos transeuntes e automobilistas pelo afã de jovens ardinas travestidos em garridos painéis publicitários ambulantes; alguns jornais são disponibilizados em estantes apropriadas em estabelecimentos e empresas ou junto à bilheteira dos parques de estacionamento ou ainda, como o Sexta, também encartados em jornais de circulação paga

por força dessa pro-actividade, há pois um acréscimo de incentivo à leitura e mesmo à retenção de informação, também recebida através da rádio (no carro), televisão (ao pequeno almoço) e internet (no local de trabalho), assim reforçando e cruzando as mensagens das notícias e comentários (e da publicidade) mas de forma apetecível e atractiva pela comodidade, gratuitidade e felicidade com que se preenche os tempos mortos de espera pelos transportes ou durante os trajectos urbanos


PS3 - ainda tentando imprimir mais alma à pergunta, pode também reflectir-se sobre a qualidade da informação – o facto de haver mais (quantidade) informação ou mais disponibilidade (é diferente) da informação, não significa um aumento automático da informação dos leitores

a questão da qualidade poderá aliás ser um limite aos gratuitos, unicamente dependentes da publicidade e nessa medida alheados da independência com que alguns idealistas ainda sonham para dignificação do papel da comunicação social na sociedade

que se saiba, ainda nenhum jornal gratuito trouxe qualquer tema importante à comunidade, como questionar o poder, denunciar abusos, investigar o que nos é ocultado – trata-se de um negócio, dirigido à captação de investimentos publicitários por via da (promessa de) conquista de audiências e não um projecto de comunicação social confiado nos leitores ou no consumo de informação

é certo que o negócio tenderá a melhorar com a progressão do nível de informação dos leitores enquanto público consumidor dos produtos publicitados

mas a informação é só a cenoura para a obtenção de audiências – os leitores são então para os jornais gratuitos o que as curvas da estrada, os locais altos ou os prédios de fachada notável são para as empresas de painéis publicitários, lutando por visibilidade do anúncio

talvez se deva concluir que o interesse em perguntar redunde em mostrar aos anunciantes que os consumidores dos produtos (leitores de jornais gratuitos) até gostam

e ainda "contribuirem" para o modelo de negócio, eh eh ... !

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