2007-12-12

suceder na hora

A elegante Cristina Kirschner (o Financial Times e a Time tratam-na por Fernandez...) acaba de tomar posse do magnífico bastão de prata que simboliza solenemente o cargo de Presidente da República da Argentina.

Advogada (ninguém é perfeito) e política, senadora eleita e admirada, popular apesar da fama de mulher dura, certamente reúne qualidades bastantes para exercer as funções para que foi escolhida por votação expressiva (45%) do eleitorado argentino.

Há no entanto uma peculiaridade relevante no curriculum vitae de Cristina Kirschner, talvez simultaneamente fragilidade e trunfo: era a primeira dama!

Sucede assim ao marido e presidente em funções no mandato anterior, Nestor Kirschner, com quem começou a namorar quando ambos frequentavam a Faculdade de Direito.

A inédita sucessão conjugal (pelo menos em regime republicano) na chefia do Estado, carrega o fardo e a velada suspeita de que se trata de presumível estratagema para fazer reeleger Nestor no mandato seguinte.

Isso faria de Cristina uma Presidente “barriga de aluguer”, para prolongamento da governação por interposto cônjuge. Mentes insidiosas, porém, poderiam sempre alegar, quiçá com propriedade, que foi Nestor o testa de ferro no mandato anterior. Quem o saberá ao certo?

Mas o plano aparente inclui a repetição futura da alternância conjugal, de forma a aproveitar ao máximo a permissão constitucional de reeleição presidencial e garantindo – jametinhamdito! – um total de quatro mandatos ao casal, independentemente de eventual repartição interna de ascendente na governação da Argentina.

Tal é de facto possível, plausível e até provável, porquanto a ingénua República não interdita a sucessão familiar nos cargos de poder desde que cumpridas as formalidades eleitorais. Às vezes, nem isso.

Esclareça-se que a sucessão “republicana” pode ser conjugal (caso do casal Kirschner), fraternal (caso dos manos Castro), parental (Kabila) ou até pessoal, em que o titular sucede a si próprio, tudo à margem do ideal republicano e democrático de rotação nos postos de poder.

Em alguns casos, há necessidade de alguma sofisticação adicional em busca de um mínimo da tão desejada aparência de legitimidade legal.

Para isso, uns tentam mudar a constituição (Chávez), outros estagiam temporariamente em cargo nominal diferente (Putin, que se prepara para nomear o vice-Primeiro Ministro Medvedev para ser eleito interposto Presidente enquanto assume as funções de Primeiro-Ministro) e, claro está, outros há muito piores em desfaçatez e apego ao lugar.

Há republicanos que se sucedem "nas horas", em família e a si próprios.

Está pois na altura de dinamizar a “sucessão na hora”.

Expedientes não faltam...

E se há candidatos!!!






observacões são bem-vindas

2 comentários:

Anónimo disse...

É interessante vê-lo meter-se com a bonita Cristina Kirchner, António, e, sobretudo, com o jeito dinástico das democracias. Mas que quer? O povo argentino gostou de ver a Cristina como primeira-dama. Ela, além de ser mediática, fez umas coisas interessantes pelos mais necessitados. Estes, por seu lado, lembraram-se miticamente da Evita e, zás!, a saudade levou-os a depositar o seu voto na Cristina.
Se tudo for sufragado pelo povo, sem quaisquer fraudes eleitorais, confesso que não vejo onde pode estar o problema. Nas universidades não há verdadeiramente cursos de boa governação, pelo que se um P.R. ensinar o cônjuge ou um familiar na sã governança de um país, os cidadãos terão mais probabilidades de encontrar alguém que os governe melhor do que outrem que nunca, nem de perto nem de longe, teve essa experiência. Nos EUA, o Bush pai também acabou por ser importante para o Bush filho (infelizmente para o mundo e para os americanos); a Hillary está a tentar ser a candidata dos democratas em 2008 e decerto que aprendeu muito com o modo de governar do seu Bill (alguns "dos e outros tantos don'ts").
É verdade que há muita coisa que se aprende com os familiares. Veja, António, o caso da Michèlle Bachelet, que é, como sabe, a actual PR do Chile e também a primeira mulher a ocupar esse cargo num país da América do Sul, ela que já anteriormente tinha sido a primeira mulher a desempenhar o cargo de Ministro da Defesa. O pai Bachelet, general, tinha-a levado a conhecer muito da vida militar. Quando ele morreu, após severas torturas numa prisão, já tinha feito parte do governo de Allende. Tudo isto dá muita motivação e algum traquejo a um familiar como a Michèlle Bachelet, médica, para se candidatar e vir a ganhar.
Se quer que lhe diga, António, o que acho mais notório ultimamente é a ascensão de mulheres a cargos de poder por via do voto democrático. É claro que todos nos lembramos de Thatcher, de Indira Gandhi e de mais umas tantas mulheres, mas costumavam ser poucas e muito espaçadas no tempo. Lembremos a nossa saudosa Lourdes Pintasilgo! Presentemente, vemos a sua Cristina, a Bachelet, a possível Hillary Clinton, já vimos a tentativa séria da Segolène em França, deparamos com uma nova tentativa no Paquistão e, joiazinha no topo da coroa, vimos há dois ou três dias uma jovem mulher (Rama Yade, Secretária de Estado dos Direitos Humanos do actual governo de França), dizer relativamente ao visitante Kadhafi coisas que muito homem não se atreveria sequer a pensar. É aí, António, mais do que no jeito dinástico de algumas democracias, que se podem encontrar verdadeiras - e saudáveis - diferenças. Creio eu.
jmco

hfm disse...

São as novas/velhas sucessões dinásticas!!!

Obrigada pela visita e pelo belo comentário.