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2007-12-02

Phone ética

o traçado engraçado de Pedro K., o "Meia Hora" de quinta-feira passada, 29 de Novembro, tenta ridicularizar a designação eleita para a telefonia móvel dos CTT, jametinhamdito, nada mais nada menos que Phone-ix !

mas só se presta a ridículo quem tem algum senso, isto é, se de todo não se desfez já do sentido do ridículo

é que no mundo globalizado de hoje, acredita-se que os desafios mais problemáticos devem superar-se pela via das oportunidades que geram...

e quando já se perdeu a vergonha, o ridículo pode render preciosos cêntimos para o relatório e contas anual

também engraçado é o esforçado emprego do "i" para reforçar o ix (Phone-x tem a mesma fonética) aos distraídos ou menos versados em inglês ... que poderiam ler "fóne-chis", prejudicando talvez o êxito da implementação do famigerado plano de marketing ou dos níveis de rendibilidade projectados

no celebrado verso "alma minha gentil ...", Camões apôs o selo do génio pela deliberação de transformar em figura de estilo um erro da linguagem comum, a cacofonia, mas também pela acumulação com outra provocação, do foro dos costumes, não sendo inocente o recurso à expressão "maminha" que é o resultado fonético do atrevimento poético

tal é permitido a valorosos poetas porque o seu reconhecimento lho permite: aos leitores não restam dúvidas sobre o carácter intencional e poético da ousadia; e porque assim é a arte, infrigir a norma e provocar as mentalidades, impondo um confronto com os limites aceites e procurando a adopção de novos limites

também a recente escolha do título "Deixa-me amar" para designar uma série televisiva (telenovela é um pouco abusivo) se compreende num projecto de deliberada cacofonia, de que o nome é apenas mais um pormenor ditado pelo marketing

há um aproveitamento da notoriedade do erro e da provocação ao nível dos costumes - neste caso, o resultado "mamar" nada terá de poesia, movendo-se tão só na suposta rendibilidade de audiência televisiva da vulgaridade

de igual modo, os CTT terão decidido em cima de aturados estudos de notoriedade e a escolha é mero produto da ditadura do marketing - às malvas com a ética

o resultado fonético pretendido "fónix" é também da ordem da vulgaridade, jargão generalizado - por substituição púdica de outra expressão de fonética aproximada e gosto ainda pior - mas correntemente utilizada por jovens cada vez mais jovens, eventualmente tão jovens que não chegaram ainda ao entendimento do significado escondido pela ténue mutação fonética

mas aos CTT, e sobretudo aos respectivos marketears, não escapam significados nem subentendidos: a aposta na vulgaridade como factor produtivo resulta directamente de projecções económica-financeiras para maximização do retorno do investimento no projecto

e da atitude perante a ética: vale tudo para realizar negócios

vale ?



observacões são bem-vindas