2006-01-16

Clara, volta que estás perdoada


sobre o artigo inaugural da colaboração de Clara Pinto Correia com um jornal tablóide, alguém a quem muito prezo jametinhadito que é um grande descaramento!

e tem muita razão mas há vida para além da razão!!

é que a vida continua, causa perplexidade as voltas que dá mas a vida continua!!!

comecei por admirar muito a Clara Pinto Correia, aproveitava a vida e o esplendor das potencialidades de uma jovem inteligente como era, abraçava causas de que já altura muitos jovens desdenhavam, realizava projectos, tinha ideias e concretizava-as, escreveu, escreveu, escreveu, muitas vezes escolhendo temas difíceis, sensíveis, longe de pacíficos, não cedeu ao marketing nem ao espírito comercial que muitos jovens (e não só...) de sucesso são tentados a seguir

entrentanto, prosseguiu os seus estudos e depois a sua profissão, especializou-se em embriologia, a biologia da reprodução, aprendeu e ensinou muito sobre genética, fecundação, os mecanismos da vida - e tinha duas vidas, investigava e publicava na área científica que a apaixonou, além de manter uma torrente impressionante de colaborações em televisões, revistas e jornais, intervenções cívicas e políticas, casou, divorciou-se, emigrou, continuou a escrever romances, a divulgar ciência, tudo, muito, muito, muito, obsessivo mesmo

às tantas, detectei-lhe algum egocentrismo, crescente, depois ostensivo, perto de narcisismo (?)

e veio a lume a adopção das suas crianças, o excessivo desvelo, as tremendistas preocupações, a ânsia de fazer tudo bem, bem demais, estranhamente bem demais

finalmente a chave: seguiu os estudos e a profissão em direcção a uma fragildade intrínseca, uma grande infelicidade, porventura mal resolvida - Clara, a força da natureza, a fortaleza em pessoa, a perseguidora da perfeição, não pode ter filhos

é em alturas destas que precisamos mesmo de apoio, compreensão e companhia à altura, para se conseguir superar aquilo que parece uma grande fatalidade mas afinal, se soubermos lidar com o assunto, pode ser encarado como apenas uma circunstância, daquelas perante a qual só nos resta reconhecer que ... a vida continua

agora está (parece) mais forte, mais humana, falível, engordou um pouco, apessoou-se, é uma mulher de plenos projectos e realizações, plena de cidadania, de activa voz cívica, tentando merecidamente estar de bem com a vida, como tantos de nós

o facto de aceitar escrever para um pasquim sem abdicar de na primeira oportunidade o caracterizar com todas as letras como tal revela bem a lucidez de que é portadora, a capacidade de intervir sem concessões, o legítimo e genuino interesse em participar e em partilhar

da colaboração com o Tal e Qual, 24 horas ou lá o que é, haverá certamente benefícios consideráveis para os respectivos leitores

e, porque não, oxalá que também para Clara Pinto Correia, para que encontre o seu lugar no mundo, no seu mundo, no nosso mundo !!!



observacoes sao bem vindas

2 comentários:

Anónimo disse...

a resposta a isto foi por mail, como constatarás

argumentonio disse...

a resposta, certeira e lúcida comode quem ela vem, baseava-se na insuficiência e no excesso da desculpa da coitadinha, argumento que tem o seu peso, valor e temperança!

há também um aspecto arreliador mesmo para o ponto de vista da defesa compreensiva: Clara Pinto Correia dirige-se aos... portugueses, nada menos, em vez de aos leitores do dito cujo pasquim, o que dá o flanco à indesculpável fronteira da pretensão...
:-(