2005-11-15

Filhos da República

Pedro Lomba, no DN de 11.11.2005, jametinhadito que “A França é de momento um caso de polícia. Depois, sim, quando a violência acabar, será um caso de política social e de política de integração. Primeiro a ordem, depois o progresso.”

Já (ques) Chirac, o Presidente de França, acha que "Quaisquer que sejam as suas origens, as crianças dos bairros difíceis são todos filhos e filhas da República".

As duas perspectivas são claramente antagónicas: o cronista do Diário de Notícias pretende significar que há desordeiros a por na ordem imediatamente e depois então se verá de eventuais razões que lhes assistam ou se há especiais dificuldades atendíveis de que sejam titulares; mas o estadista francês sublinha que importa repor a prioridade política da igualdade de todos os cidadãos perante o Estado, sem prejuízo da necessidade de actuação contra os actos de violência.

Uma análise um pouco mais consequente permitiria ainda extrair do princípio enunciado por Chirac um outro corolário: o mal estar da sociedade francesa para com a discriminação a que votou os jovens dos subúrbios foi agudizado, na origem dos tumultos e perturbação da ordem pública, por um acto político irresponsável, até agora sem remorsos do “veneno” que espalhou sobre a comunidade, atribuindo descuidada ou deliberadamente o epíteto de “racaille” (escumalha) sobre grupos de jovens incluídos precisamente na injusta discriminação social que o Presidente francês reconhece.

Mas se a França ainda não extraiu o corolário devido, terá que aceitar prolongar o convívio com a consequência necessária, havendo porém o perigo de o consolidar e enraizar, fundando afinal a segregação antagónica e destruidora dos princípios republicanos da igualdade, justiça e fraternidade.

Caberá ao Governo e ao Presidente francês um papel decisivo na pacificação, porém incompatível com a manutenção do Ministro Sarkozy, de cuja actuação a França não se pode orgulhar nem agradecer.

A prevalecer a cegueira do primado da ordem sobre a justiça, nem se acaba com a desordem nem com a injustiça.










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