2012-07-27
Verbo olímpico
segundo noticia o Público, os participantes nas Olimpíadas de Londres estão sujeitos a regras de bom gosto e mínimos de decência nas conversetas online
o Comité Olímpico jametinhadito que proíbe a linguagem vulgar, o que faz todo o sentido e merece mais empenho que o dedicado a temas como o Acordo Ortográfico, pelos fervorosos contra e a favor
outro preceito de valor é a obrigação de se obter o acordo de todos os intervenientes para publicação de imagens obtidas na Aldeia Olímpica - porventura vai ser muito difícil assegurar o cumprimento desta norma, tal é o à vontade com que os jovens (principalmente! mas não só...) captam e difundem imagens com desprezo olímpico dos direitos alheios
boa parte dos preceitos do documento são aliás de bom senso, mais do que verdadeiras inovações normativas: o «IOC Social Media, Blogging and Internet Guidelines for participants
and other accredited persons at the London 2012 Olympic Games» contém um conjunto de disposições sobre o respeito da identidade e imagem de quem aparece nas fotografias, bem como indicações de boa conduta em matéria de publicação e partilha de sons, vídeos, relatos, publicidade, resultados, provas, etc.
por envergonhar os concidadãos do seu País, uma atleta grega foi expulsa da sua delegação olímpica mesmo antes da cerimónia de abertura
oxalá os nossos desavergonhados políticos (sabem que dificilmente serão expulsos por se comportarem abaixo dos mínimos) observem também o decoro olímpico no verbo governativo e parlamentar!!
e que os Jogos comecem!!!
;_)))
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-07-13
Colunas ditosas
da terra, das águas, dos céus, das combustões nós dentro e mais além, conhecimento, esquecimento e desconhecimento, escrito e por escrever, havido, por acontecer e outras utopias, mistérios e uni... versos ;_)))
Perguntaram-me da terra da utopia
mas ao longe só vi uma gaivota.
Da terra da utopia eu não sabia
nem do mar nem do sítio nem da rota
talvez não fosse mais que um sonho que ninguém sonhava
um soluço de Deus um cheiro a maresia
e ao longe uma gaivota que pairava
sobre um ponto no azul sobre utopia.
Manuel Alegre, Cais das colunas, in "Nada está escrito", D. Quixote
Renato Monteiro, fotografia analógica a preto e branco com legenda magistral, também cúmplice e desafiadora
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-07-10
voamos, não voamos
Pelo sonho é que vamos
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-07-02
Abril outra vez
mudados tempos e vontades
grudados ventos, tempestades
por demais o mesmo se alevanta
o engano em passos pinta a manta
e por força de ficar tanto na mesma
anda o povo a correr como uma lesma
oxalá o rasto cole, frise e humedeça
o demagogo e os pés lhe ponha na cabeça
sempre andava um pouco mais ladino
á onde voa alienando o nosso destino
resta a voz, a esperança, a união, a poesia
e, quiçá, o voto a escorraçar a aleivosia
ou mesmo o que se impõe tão fortemente:
ir sem medo à luta, denunciar, cerrar o dente
um novo dia inteiro, um novo Abril, é já merecido
que o primeiro, se então fez luz, é já esquecido
apre, jametinhasdito!
glosa ao Prof. Adelino Maltez
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-06-20
Ditosa posa
parece fácil...
mas onde está a Ditosa deste mês?
o prémio é a participação num evento que só ocorre uma vez por ano!
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-06-13
fechar a porta?
por favor...
jametinhamdito!...
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-06-08
aprender, sempre
aprender? mas é preciso aprender? e sempre?
num artigo em que respiga um texto de Johanni Larjanko, da EAEA (European Association for the Education of Adults), o site da Associação "O Direito de Aprender" dá voz e notícia à falta de voz e de notícias sobre o tema da Educação de Adultos
entre nós tem até havido notícias: a extinção anunciada do programa Novas Oportunidades e de tantas vontades, sonhos, saberes, realizações e projectos de futuro que levaram anos a erigir
à parte a logística, arreliadora, que afecta a referida organização, a EAEA, certo é que o predomínio da crise - como de resto, antes dela, o ostensivo massacre mediático a que fomos sujeitos através de muitos dos factores que a espoletaram, como o consumismo desregrado, a desregulação da inventiva financeira e a virtualização até de aspectos fundamentais da economia, como a casa de cada um ou da sua família - avassala grandemente os discursos, tanto os particulares como os públicos e mediáticos, a tal ponto que por (muitas) vezes se sobrepõe uma insuperável inevitabilidade de tudo quanto acontece e vai acontecer, suprimindo as alternativas, desde as verdadeiras opções às meras possibilidades e até às simples conjecturas, enevoando os próprios sonhos e, não raro, a capacidade de pensar, num crescendo breu, de apagamento e esquecimento geral...
é pois muito bem vindo o alerta: urge retomar o ponto de situação, voltar a tentar ver claro, forçar a reflexão, é preciso pensar, discutir, analisar, propor, lutar!
desde 1985 que estamos formalmente avisados, na sequência de estudos diversos culminados em Recomendação oficial da OIT, sobre a importância da formação ao longo da vida!!
claro que já havia mundo antes disso, noutras formas de expressão, desde a educação permanente ao treino e certificação da formação em diferentes formatos e modelos, estaduais, não governamentais e da pura sociedade civil, incluindo as famílias, as empresas e até projectos individuais - o nosso grande Gago Coutinho viveu até aos 90 anos e estudou toda a vida, aliás, enquanto há vida há aprendizagens
mas são múltiplos os factores de entropia, incluindo alguns provenientes da esfera da mais genuína boa vontade: é o exemplo de dedicados "gestores" de «recursos humanos» ou as respectivas administrações e inevitáveis programas, consultores, políticas e compromissos - todos tratando as pessoas como «recursos» em vez de sujeitos, participantes activos no processo de criação de valor e de sustentação da organização e da comunidade em que se insere
nessa mesma esfera se inscrevem os projectos de valorização dos «activos humanos» e até do «capital humano» - adeus pessoas, sujeitos e demais conceitos da ordem do "ser"...
o vazio de notícias, muito bem observado, não é, pois, inconsequente nem meramente acidental mas sim preocupante, correspondendo a um vazio de ideias que não resulta apenas da inconsideração mas da aplicação de uma particular ideologia, para aquietação das almas e alienação do humano que em nós anseia por oportunidades de aprender e intervir, de contribuir para a regulação do quotidiano como para os grandes desígnios que a Humanidade há muito identificou - Saramago alertava bem: chegamos mais depressa a Marte que ao nosso semelhante - e que regressam e recrudescem à medida que aumentam e se promovem as desigualdades, norte/sul, homens/mulheres, ricos/pobres, desenvolvidos/subdesenvolvidos, cibernéticos/infoexcluídos, problemas que se agigantam em todas as sociedades e à porta de casa
o reconhecimento desse apagamento, do seu propósito e da necessidade de uma consciência é um imperativo categórico, não uma nova moral mas uma inquietação necessária a bem do saber e dos seus frutos mas também do apaziguamento das políticas e economias agressivas que nos trouxeram aqui, à beira da desesperança, à ausência de relevância, a este medonho silêncio sobre o que verdadeiramente importa
jametinhamdito!!!
;_)))
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-05-26
Oração
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
Natália Correia
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-05-23
crescimento
Manuela Ferreira Leite jametinhadito: "Se não houver crescimento económico, não há a possibilidade de se conseguir consolidar as contas públicas"!
talvez esteja certa, aritmeticamente, pois como a dívida é a maior fatia do Orçamento do Estado, a intervenção depressiva nas outras rubricas de despesa afecta irremediavelmente a capacidade de geração de novas e mais receitas, deixando em roda livre o aumento dos juros e da dívida pública
para muitos intervenientes com fortes responsabilidades na condução da governação e na sua influência, tal conceito mantém-se desaparecido, abstracto ou mesmo combatido ferozmente
observações são bem vindas obrigado ;_)))
talvez esteja certa, aritmeticamente, pois como a dívida é a maior fatia do Orçamento do Estado, a intervenção depressiva nas outras rubricas de despesa afecta irremediavelmente a capacidade de geração de novas e mais receitas, deixando em roda livre o aumento dos juros e da dívida pública
para muitos intervenientes com fortes responsabilidades na condução da governação e na sua influência, tal conceito mantém-se desaparecido, abstracto ou mesmo combatido ferozmente
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-05-11
AAA
Alexandre/Alain/Amália
se uma Ditosa...
;_)))
Gaivota
Poema: Alexandre O'Neill
Música: Alain Oulman
Interpretação: Amália Rodrigues
Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de lisboa
No desenho que fizesse,
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa,
Esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
Dos sete mares andarilho,
Fosse quem sabe o primeiro
A contar-me o que inventasse,
Se um olhar de novo brilho
No meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu,
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro,
Esse olhar que era só teu,
Amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
Morreria no meu peito,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-03-29
DO 25 DE ABRIL À TROIKA (3)
Quanto ao alcance e inspiração da expressão “os que vieram depois”, foi gentilmente oferecida ao Ditos uma interpretação autêntica, prova competente e oportuna de que se pode legendar também os textos - mesmo os mais claros, como é o caso "DO 25 DE ABRIL À TROIKA".
Volte a palavra a Fernando Cardoso de Sousa:
_«Estava eu numa daquelas sessões do 25 de Abril, no auditório da Câmara Municipal de Albufeira, com mais de meio milhar de jovens do secundário, na parte de perguntas e respostas, quando uma jovem se levanta e pergunta aos convidados (presidente da Câmara e dois ‘capitães’ de Abril) o que de melhor e pior tinha deixado o 25 de Abril.
Eu achei a pergunta bem difícil e empurrei para os meus colegas a resposta, que eles deram de forma pouco convincente e elaborada. E foi na iminência de eu dizer algo que fizesse sentido, que me veio um repente: – “O melhor foram vocês! A alegria de ter mais de meio milhar de jovens, num Concelho pequeno, a frequentar o ensino secundário e a fazer perguntas tão inteligentes. E o pior foram ‘”os que vieram depois’”.
E lá expliquei o conceito. E o pessoal gostou! Mais daquela ‘o melhor são vocês’, claro.»
O Ditos também gosta, muito, do texto e seu contexto, numa perspectiva de algum modo crua e dura mas guardando uma saudável nota de esperança responsável - atitude a lembrar Gramsci, que falava em pessimismo realista e optimismo inteligente ;_)))
Mais um muito obrigado!!!
observações são bem vindas obrigado ;_)))
DO 25 DE ABRIL À TROIKA (2)
Imagem: “Partido”, seleccionada do livro
"25 de Abril”, de 1996, de J. Rosa Guerra, obra que expressa um desânimo
quando a esmagadora maioria de "os que vieram depois" se lambiam com
os dinheiros europeus, festejando, em sintonia com a onda urbana
pós-modernista, uma das grandes perdas do povo português: a perda do sentido
colectivo e do sentido do outro.
Legendando a legenda e interpretando a ligação
da imagem ao texto, J. Rosa Guerra explicita:
«a palavra “partido”, associada à foto,
já não significa partido político (com a grandeza da palavra polis) para
remeter para um sentido de quebra, divisão, mutilação, dificuldade em caminhar
…
Todas as fotos do livro foram tiradas no
dia 25 de Abril (mas de 1996) ou seja, fazem a pergunta, o que é significam
hoje (em 96) os ideais de Abril de construção de um Portugal mais igualitário?
Nesta imagem (de Alcântara, mas que
podia ser de um subúrbio), num olhar atento à figura, percebe-se que se trata
de um jovem e popular (pela indumentária): enquanto uns “que vieram depois”
festejam (estamos em 96) outros mantêm a dificuldade em seguir adiante mesmo
que a sua idade lhes prometa uma “longa vida”. Naquele rapaz (ele próprio
mutilado no enquadramento fotográfico), já se adivinha uma juventude agarrada a
um futuro contraditório, quebrado e incerto.»
Trata-se uma generosa partilha, como um
ponto de cumplicidade com a crítica aos “que vieram depois”.
O Ditos agradece a J. Rosa Guerra o labor criativo, interpretativo e crítico: triplo sinal de esperança, realismo e sentido de intervenção, tão mais necessária quanto o que se antevia em 1996 nos desabou com mais uma dose de FMI de que só nos voltaremos a livrar com lucidez, dentes e punhos cerrados, permanente apelo à memória e mangas arregaçadas para semear um futuro condigno!!!
O Ditos agradece a J. Rosa Guerra o labor criativo, interpretativo e crítico: triplo sinal de esperança, realismo e sentido de intervenção, tão mais necessária quanto o que se antevia em 1996 nos desabou com mais uma dose de FMI de que só nos voltaremos a livrar com lucidez, dentes e punhos cerrados, permanente apelo à memória e mangas arregaçadas para semear um futuro condigno!!!
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-03-27
DO 25 DE ABRIL À TROIKA
Por Fernando
Cardoso de Sousa
Ten-Cor de Infª na Reforma
Parte I – O 25 de Abril e os ideais
Foi uma longa espera no Terreiro do Paço. Espera que viesse uma ordem
para avançarmos e prendermos os membros do governo que víamos espreitar-nos das
janelas. Não percebíamos porque é que as ordens não vinham, quando tudo nos
parecia tão fácil dali. Mas cumprimos bem e ninguém resolveu agir por conta
própria.
Finalmente vieram as ordens para avançarmos e, é claro, já lá não estava
ninguém, ou só restavam alguns coronéis, chefes de gabinete ou investidos de
outras funções, que resolveram não fugir. E fizeram bem, pois também nada lhes
aconteceu, já que ninguém nos tinha mandado prendê-los; até conversaram
calmamente com alguns oficiais sobre a justeza do golpe. Mas a missão ainda era
(pensávamos nós) capturar membros do governo e assim fomos andando pelos
corredores do palácio esperando encontrar algum retardatário. Mas eis senão
quando uma porta enorme nos barrou o caminho e, se bem que todos procurassem a
chave, ela teimava em não aparecer. Era lógico que os fugitivos tinham fechado
a porta à chave, para dificultar a perseguição. Que fazer então? Aparentemente
só havia uma solução: arrombar a porta de qualquer forma pois, por muito
resistente que fosse, não conseguiria deter militares aguerridos e
determinados. Só que…quem é que arromba? Uns não queriam a violência, outros
hesitavam em tomar a iniciativa mas todos, de um modo geral, achávamos mal
danificar uma porta tão bonita e valiosa, ainda por cima fazendo parte da
Fazenda Nacional…e não se arrombou. Ainda procurámos alternativas mas, como não
encontrámos, voltámos por onde tínhamos entrado e fomos embora.
Do Terreiro do Paço, um grupo seguiu para a António Maria Cardoso –
quartel da PIDE e outro para a Penha de França – quartel da Legião Portuguesa.
Eu segui no da Legião e, à medida que nos íamos aproximando, os soldados
tomavam posição em prédios contíguos à fortaleza, prontos a ripostar ao
primeiro sinal de resistência. E o grosso da coluna lá seguia, imbuída do
espirito de missão mais revolucionário e aguerrido.
E esse espírito era necessário, pois começámos a vislumbrar legionários
armados, que nos espreitavam do cimo das muralhas. Só que, em vez de tomarem
posições defensivas e camufladas, limitavam-se a passear a descoberto e a olhar
para nós com curiosidade. Ainda por cima com as armas em bandoleira, daquelas
Mauser da I Guerra, em contraste flagrante com o armamento pesado e moderno
(para português, claro), que se passeava debaixo dos seus olhos. Era demais!
E chegámos ao portão de entrada que, apesar do adiantado da hora, se
encontrava teimosamente fechado. Num ápice as Chaimites tomaram posição,
apontando as peças, no que foram seguidas pelo pessoal que, devidamente
entrincheirado, visava a porta auxiliar, que fazia parte do imenso portão de
ferro. E, quando esperávamos que algumas granadas desfizessem o portão em
pedaços, o chefe da força, major Jaime Neves…tocou à campainha. E, nada…
Tocou novamente e, passado um tempo considerável, apareceu alguém à civil
que…perguntou o que queríamos. E com uma paciência de Jó, o major lá explicou
que se tratava de uma revolução (de que talvez já tivessem ouvido falar) e que
estávamos ali para tomar conta do quartel, pelo que deveriam render-se rapidamente,
para evitar derramamento de sangue. E a figura fez que tinha percebido,
retirou-se e…fechou a porta de novo. E só muito depois lá apareceu o comandante
– general Pimenta de Castro – e sua comitiva, a declarar a rendição. Ato
contínuo, a tal figura à civil – um coronel reformado – em jeito de encenação e
à falta de uma espada, saca da pistola, retira o carregador e deposita o
conjunto no chão, em sinal de rendição. Todos respirámos de alívio mas, quando
nos preparávamos para entrar calmamente no quartel, o tal coronel reformado,
tem um vipe (inspiração momentânea), volta atrás, apanha a pistola do chão,
introduz o carregador, arma a pistola e, barrando a entrada no portão, exclama:
- “Não me renderei! Só por cima do meu cadáver!”. E ali estávamos nós com 300
armas e 10 canhões apontados aquela figura rocambolesca, sem saber o que fazer.
E, mais uma vez, com muita paciência, o major lá explicou ao coronel o ridículo
da situação, que voltou a colocar a pistola no chão e entrou à nossa frente.
E, daí a pouco tempo, já confraternizávamos alegremente com o ‘inimigo’,
comendo presuntos e chouriços, bem regados com bom vinho, atividade que, pelos
vistos, constituía ocupação principal dos legionários.
Ao fim da tarde, apareceu uma força militar toda fresquinha (já não
dormíamos há quase 48 horas), com ar muito operacional e determinado, com
ordens para nos substituir, começando de imediato a sua ocupação principal que foi
“sacar” tudo o que pudesse ter valor. Aí comecei a aprender que a revolução,
afinal, pertencia aos que “vinham depois” e achei que seria melhor sair
definitivamente de cena e recolher-me a quartéis. E da intenção passei à ação
quando, uns dias depois, numa daquelas operações de busca por denúncia de
existência de armas escondidas (inexistentes, claro), no interior do Castelo de
S. Jorge, vi um furriel sair de um compartimento com o ar mais feliz e alienado
deste mundo, pois tinha conseguido roubar um cabide de arame, daqueles que
costumamos deitar para o lixo, quando vamos buscar a roupa à lavandaria. Era
realmente a altura me ir embora, pois a revolução, para mim, tinha acabado e
pertencia agora aos que “vieram depois”.
Parte II – O tempo da “troika”
De certo modo, é essa ainda a sensação que tenho hoje, quando vejo oportunistas
sacarem tudo o que conseguem, sem qualquer consideração pelos outros ou pelo
país. É como se os dinheiros e património públicos lhes pertencessem e todas as
mordomias se justificassem pelos “sacrifícios” que passam (ou passaram). Tal
como no pós-25 de Abril, os medíocres, os impreparados, os apressados e os que,
de um modo geral, não estão dispostos (ou não têm capacidade) para vencer na
vida a pulso de esforço próprio, tomam conta das ocorrências pela via do
partido, ou de outra agremiação de troca de favores, desde que as
circunstâncias permitam que o façam com um mínimo de risco para si próprios.
No fundo, isso mesmo aconteceu connosco, quando, depois de sairmos do
Terreiro do Paço, encontrámos uma multidão entusiasta, que nos vangloriava como
reis. E muitos de nós, simples soldados, pouco habituados a banhos de multidão,
convencemo-nos que, afinal, éramos mesmo reis, merecedores de todas as regalias
e poder quando, na realidade, pouco tínhamos feito com risco verdadeiro. E
tantos foram os que se deixaram inebriar pela luxúria do poder, durante o PREC
que se seguiu, até descobrirem que, afinal, não eram reis nem génios mas
simples soldados ignorantes.
O 25 de Abril deixou muita coisa, boa e má, mas nenhuma tão execrável
como aqueles que “vieram depois” e que ainda ocupam muitos dos lugares deixados
vagos pelos do antigo regime e pelos que lutaram para que tudo mudasse.
Se calhar, tem de ser mesmo assim e a única esperança é que o sistema vá
aprendendo e nós próprios vamos sendo mais capazes de colocar, nos lugares de
poder, os tais génios e reis, que temos, mas que teimamos em não valorizar.
Na verdade, se
examinarmos os motivos do colapso de sociedades inteiras, como os Vikings ou os
Maias, vemos aí razões ligadas à manutenção dos sistemas de poder instituídos,
que impediram que soluções verdadeiramente eficazes pudessem surgir. Não
propriamente por destruição intencional dos recursos mas por terem criado um
vazio de imaginação inerente à incapacidade do poder em gerar um discurso
diferente daquele que o fez poder, mesmo que tal signifique o aniquilamento
total, como na Alemanha de Hitler ou na Líbia de Kadhafi.
O que faz falta
é agir sobre a nossa capacidade coletiva de tomar a iniciativa de definir e
resolver os problemas. A base do iceberg compõe-se da incomensurável letargia
de um povo demasiado habituado a ser governado, em vez de governar-se. Assim, o
verdadeiro mérito de um governo, deste Governo, não estará tanto em sanear as
contas públicas (condição sine qua non,
é certo) mas sim em libertar a sociedade civil para construir o futuro do País.
E, para isso, é necessário destruir as bases em que se constituiu o poder que
nos levou a esta crise.
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-03-19
modos de não mudar
Dos modos
Pequenina a paz que nos vão dando
os que dando se comovem.
É a paz a quatro linhas: Boas Festas.
É a paz da sobremesa: doce de ovos.
É a paz da nebelina: demos graças.
É a paz do não te rales
E não fales
E não faças.
Ana Maria Ferreira
in Arquipélagos da memória, a Torre de Babel e outras histórias
Plural – Gota de água, INCM, 1984
ps - porque jametinhamdito...
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-03-14
mestria
ou aprendizado?
_ O pinheiro manso tem a copa redonda!
_ As pessoas mansas são redondas?
Quem jametinhadito e quem jametinhaperguntado?
Quem é Aprendiz e quem é Mestre ?
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-03-11
Outono
folhas caídas de Outono chegado, a Natureza é Mestre do
calendário trocado
a Princesa Magnólia, vestida a rigor, ilude o Inverno e desponta em flor
a sul, a ladina Andorinha antecipa e anuncia a Primavera em tempo de ilusão: estão os dias um perfeito Verão

observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-03-08
Cesária voa mais alto
jametinhamdito que o movimentado Aeroporto Internacional de São Pedro, na ilha mágica de São Vicente, em Cabo Verde, é hoje em boa hora rebatizado: a ideia já tem meses mas é concretizada numa feliz conjugação de homenagens às Mulheres e em especial a Cesária Évora!
a quem viajou ao ladinho de Cesária sabe muito bem a justíssima homenagem, pela humildade e cativante simpatia mas também, ao sair do avião em S. Pedro, pela calorosa recepção e interminável salva de palmas que os amigos, admiradores e circundantes invariavelmente lhe dedicavam durante o trajecto, a pé, até ao modesto mas digno edifício aeroportuário
parabéns a todos, especialmente a Elas!!
e é tanta sodade!!!
;_)))
observações são bem vindas obrigado ;_)))
ps - créditos: pela utilização da fotografia é devido um café, margoso
2012-03-07
QREN é você!
jametinhamdito que há uma «guerra de Jardim e manjerona» para saber quem "gere" os fundos europeus do QREN, o ministro das Finanças - que nunca trabalhou numa empresa - ou o da Economia - que também não, mas escrevia lá de fora ...
o que está por dizer é que a Troica externa tem a última palavra a dizer - ou devia ter - e por isso o Primeiro Ministro tem que alterar alguma coisa, que mais não seja para que tudo fique essencialmente na mesma
e falta alguém dizer que uma boa mudança na gestão
dos dinheiros europeus seria muito bem vinda para o povo português, por muito
que doa a alguns políticos e aos vendedores de automóveis de alta cilindrada onde
vai parar o "apoio" a fábricas em segunda mão, a formação
profissional para não pagar ordenados, a criação dos mesmos postos de trabalho
de sempre (com os milhões de postos de trabalho "criados" com os fundos
comunitários toda a população portuguesa estaria várias vezes empregada, um dia
que façam as contas ficaremos a saber quantos empregos teria cada português) e
a inovação ou a projectos de interesse nacional que nunca viram a luz do dia,
talvez por terem sido negociados à noite
então não é de estranhar tanta pressão para tudo
continuar na mesma???
observações são bem vindas obrigado ;_)))
2012-03-04
2012-02-15
Arte
discurso directo:
Toda a arte é perfeitamente inútil - Óscar Wilde
A arte só faz sentido se for útil - Antoni Tàpies
observações são bem vindas obrigado ;_)))
ps - Toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo.
Os que penetram para lá da superfície, fazem-no a suas
próprias expensas.
Os que lêem o símbolo, fazem-no a suas próprias expensas.
O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida.
A diversidade de opinião sobre uma obra de arte revela que a
obra é nova, complexa e vital.
Quando os quando os críticos divergem, o artista está em
consonância consigo próprio.
Podemos perdoar um homem que faça uma coisa útil desde que
não a admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é ser objecto de
intensa admiração.
Toda a arte é perfeitamente inútil.
Óscar
Wilde, in retrato de Dorian Gray
(Prefácio)
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