2011-05-30

enxadazinha


"Espero que o seu curso lhe sirva para muito", jalhetinhadito Pedro Passos Coelho, candidato e provável 1º Ministro português, a uma jovem estudante ressabiada com a menorização do programa "Novas Oportunidades" durante a campanha eleitoral

Vá lá... podia ter-lhe oferecido uma alfaiazinha...







observações são bem vindas ;->>>

2011-05-25

regresso


a cereja em cima do ... comboio!






























além de ansiados e bucólicos passeios à linha do Tua, para registo de uma última Primavera antes da construção da barragem que modificará radicalmente a paisagem, perspectivam-se outras... comboiadas!!

a CP propõe magníficos programas temáticos em torno da época da cereja (em flor, por Abril, e em fruto, por Maio e Junho) incluindo a bela viagem de comboio (Santa Apolónia, em Lisboa, à estação de caminho-de-ferro de Castelo Branco, e regresso) com o brinde, a cereja em cima do passeio, de uma visita a Castelo Novo e ao Museu Cargaleiro, em Castelo Branco...

preços convidativos: 48€ pela viagem de comboio e autocarro, guia, seguro e refeição - 27€ para crianças até 12 anos; mesmo para 4 pessoas compensa o valor de portagens, combustível e refeições avulso

mesmo para automobilistas ferrenhos, imagine-se o sabor, o valor e o prazer do regresso a um passeio convivial e contemplativo, como jametinhamesquecido que o comboio nunca deixou de proporcionar!!!





observações são bem vindas ;-)))

2011-05-21

Maio em flor


talvez seja o maduro Maio a fazer o seu efeito na cidade, em flor no que lhe resta de natureza

certo é que vai adiantado e granizado este Maio e o admirável AZ-blog ainda não cumpriu este seu dever

é, pois, modestamente, que o Ditos oferece um cheirinho (quem dera, o cheiro das tílias a subir em redor até à raiz dos sonhos) ou singela migalha para sinal, recibo de reserva e princípio de cumprimento da tácita mas honrosa promessa alheia: aqui vai jacarandá!
































































recomenda-se o devido cuidado com as alergias e o maior desfrute visual e aromático do que Lisboa sabe tão Bem oferecer ;_)))



ps1 - a imagem das tílias deve-se a ditosa, atenta e solidária gentileza de AMS!
ps2 - as de jacarandás, de Lisboa, powered by Blackberry, como que a pedir desculpa de tão bera qualidade fotográfica, mas cheirinho é cheirinho, o contrato (blogo-social?) continua a ser imputável ao ditoso AZ-blog!!
ps3 - mas o AZ-blog está em dia em todas as demais rubricas: poesia de A a Z, de excelente escolha; análises cuidadas de temas relevantes para (o sentido d)as nossas vidas; e as indispensáveis "Sugestôes"!!!




observações são bem vindas ;-)))

2011-05-19

armilar


vante a ocidente, a ditosa cruza o ar
diante do tempo em que o mundo será
porventura um completo esquecimento
















rumo ao vento, orienta-se no âmbar
e por sobre memória e fé edificará
um novo e ingénuo deslumbramento



observações são bem vindas ;-)))

2011-05-18

ode à siciliana (1.e4 - c5)














Alexander (Sasha) Grischuk (russo, 28 anos) e Boris Gelfand (israelita oriundo da Bielorrússia, ex-URSS, 42 quase 43 anos) qualificaram-se para a final do Torneio de Candidatos!

o vencedor disputará o título mundial de xadrez contra o actual campeão, Viswanathan (Vischy) Anand, indiano, 41 anos

jametinhamdito que todos são especialistas na valente abertura siciliana, em que as negras respondem ao primeiro lance branco de peão de rei com o movimento de duas casas do peão de bispo de dama, à valente !!

ah, valentes !!!




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2011-05-16

secundário?


diferença enorme!


há uma eternidade a recuperar...


sabe-se, mas a história dói a sério com um jametinhasdito em números oficiais...



























e os anos que rondam a nossa vida colectiva bem precisam de mais e mais qualificação!


para ontem!!!














observações são bem vindas ...

2011-05-11

destino?


al destino y a la providencia, le gusta jugar con nosotros, jametinhadito Carmen Posadas, in Pessoal & Transmissível, sob a batuta de Carlos Vaz Marques, na TSF ao fim da tarde de ontem, 10 de Maio de 2011, e ainda ecoa ...




observações são bem vindas ;->>>


ps - entre outras afirmações ou considerações interessantes, acerca de si, sobre a vida e sobre a literatura, a escritora uruguaia também diz que "o ser humano é uma maravilhosa mescla de contradições", a propósito da bondade e da maldade de que todos somos portadores - convidando talvez a voltar a Lourenço e à "realidade dividida", talvez superação da "realidade complexa", que parecia tão insuperável na boca de outros sábios; mas conclui que mudou de opinião quanto à prevalência da inteligência sobre a bondade, mudança que atribui à idade, «porque à medida que se envelhece, aprende-se a dar mais valor ao que realmente o tem»

2011-05-08

alegria


elegante como só as Ditosas, iluminada, expectante e atenta, prestes a voar, direcção definida a geometria e nível

no entanto, um fio de prumo a prende à terra, ao nicho, ao conhecimento: primeiro, procura-se, observa-se, ouve-se; depois, tudo é filosofia ...




e se a busca é a quadratura do círculo, o ponto que une triângulo, círculo e quadrado, às três dimensões, ao movimento e ao tempo, há que acrescer espírito, liberdade e fé!!!

;_)))




observações são bem vindas

elogio das heterodoxias


"Aceitando, como escreveu Eduardo Lourenço, que «no plano do agir, na filosofia ou na política» somos inevitavelmente «uma realidade dividida», resta então a cada um o dever de escolher entre acatar ou inquirir, conformar-se ou dissentir.", jametinhadito Rui Bebiano, a iniciar um novo blog

heterodoxias à parte, há um propósito de manter viva uma forma de partilha que promete ser um sítio magnífico para aprender

certo, certinho, é também que os blogues mantém vitalidade, resistindo ao imediatismo de facebook e twitter mais aptos a "despachar" informação e pulverizar, afinal, o repetido encadeamento da ortodoxia

mas há também um admirável encanto: reconhecendo a multiplicidade e a variedade, ou seja, a individualidade da intervenção humana, em heterodoxias|21, Rui Bebiano oferece humildemente, como só aos sábios é possível, uma visão conhecedora dos factos e das teorias que incorpora o valor próprio da diversidade como visão pessoal, única e potencialmente inovadora


observações são bem vindas ;->>>

2011-05-06

apiedai-vos da nação



«_Meus amigos e meus companheiros,
apiedai-vos da nação que está cheia de crenças
e vazia de religião

Apiedai-vos da nação que veste uma roupa
que não é por si tecida,
que come um pão que não semeia
e bebe um vinho que não sai das suas uvas.

Apiedai-vos da nação que acolhe o fanfarrão como herói
e ignora o conquistador.

Apiedai-vos da nação que despreza a paixão no seu sonho
e no entanto se submete no despertar.

Apiedai-vos da nação que não ergue a sua voz
a não ser num funeral
e que não se rebela
excepto quando tem o pescoço entre a espada e a parede.

Apiedai-vos da nação cujo chefe é uma raposa,
cujo filósofo é um farsante
e cuja arte é a do remendo e da imitação.

Apiedai-vos da nação que acolhe o seu novo governante
com trombetas e se despede dele com cornetas,
para acolher o seguinte novamente com trombetas.

Apiedai-vos da nação cujos sábios estão envelhecidos
e cujos jovens ainda estão no berço.

Apiedai-vos da nação dividida em fragmentos
em que cada fragmento julga ser uma nação.»



jametinhasdito Kahlil Gibran,
in O Jardim do Profeta, 1923,
ed. Coisas de ler, 2001, trad. Ana Sampaio
observações são bem vindas ;_)))

2011-05-01

Super


tudo pode, uma super Mãe!




















o Benfica vencia em Olhão (sim, futebol, porque não? aliás, a tão nobilíssimo propósito, serve todo o pretexto) e havia grave perigo de regresso à segunda divisão...

mas o dia é especial e um voto assim querido, manifesto e aguerrido, como um fervor, sentimento genuíno, um amor que não morre, só pode ser, inteiramente, correspondido!!

num ápice, mesmo se no último e improvável instante, já mesmo depois de esgotado o tempo suplementar, o Olhanense marcou, empatou e assegurou a permanência!!!

quais árbitros, jogadores, treinadores, cronómetros, porventura acasos?

jametinhamdito, é tudo obra da SuperMãe!!!

;_)))



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2011-04-29

rei Mário!


o Ditos não prima pela pontualidade nem pela actualidade, aliás de acordo com o estilo definido e consagrado consuetudinariamente vai para 7 anos

mas vez por outra, vai um acabaDito, ó vejais:

a Fundação Gulbenkian promoveu a exibição de filmes de Luísa Schmidt sobre os 40 anos da política ambiental portuguesa, agora editado em DVD, depois da sua emissão em 4 episódios pela RTP, há uns anos

a anteceder o evento, discursaram, além da Autora e de Rui Vilar, Presidente anfitrião, 3 personalidades convidadas (Mário Soares, Miguel Sousa Tavares e Viriato Soromenho Marques) e um homenageado, o interessantíssimo Eng. Correia da Cunha, pioneiro da dita celebrada e quarentona política ambiental: aliás, toda a notável intervenção deste protagonista seria um completo e riquíssimo cardápio de jametinhasDitos!

mas, mais modestamente, vamos ao ponto: Soares historiou e referenciou, ao seu estilo, os factos e as personalidades que o impressionaram (fez justiça a Gonçalo Ribeiro Teles e ao Prof. Mário Ruivo, entre outros) e discorreu elogios sobre o seu amigo, também monárquico, Sousa Tavares, enaltecendo-lhe múltiplas qualidades, mas interrompeu abruptamente o fio de raciocínio para clarificar: referia-se obviamente a Sousa Tavares Pai e não ao Filho, presente na mesa e que de imediato ficou (ainda mais) vermelho que nem um pimentão...

naturalmente, ou seja, na inversa proporção do topete, que tantas vezes falta aos jovens e aos arrogantes, Miguel Sousa Tavares acusou o toque e aproveitou a sua oportunidade de intervenção para ditar para a acta o jametinhasdito de hoje: retomou o ponto e considerou que Soares tinha cometido uma inconfidência, ao revelar publicamente a tendência monárquica de Francisco Sousa Tavares, mas arrancou uma gargalhada da assistência ao asseverar que nos seus últimos tempos, o ex-deputado do PS e do PPD, ex-ministro de Mário Soares, na pasta da Qualidade de Vida (curiosamente, e talvez não por acaso, a secção de Luísa Schmidt no Expresso intitulava-se, salvo erro, "Qualidade devida") enfraquecera bastante a sua convicção monárquica, excepto se Mário Soares fosse o rei!!!

eh eh ...

;_)))






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2011-04-26

Sophia à linha


ou falemos ainda sobre a Páscoa: importa ouvir os Mestres, neste caso, a BNP jametinhadito, a Mestra Sophia !


















ps - Sophiateca... ou Sophiaweb?

ps2 - «O 25 de Abril foi dos momentos de máxima alegria da minha vida. Foram dias que vivi em estado de levitação. Isso aliás aconteceu a muita gente. E está dito no poema que escrevi: «Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo/ Em que emergimos da noite e do silêncio/ E vivos habitamos a substância do tempo».
De facto fiquei em êxtase e foi como eu vivi. Mas ao mesmo tempo foi uma ocasião perdida, de uma maneira terrível, talvez porque não está na natureza das coisas cumprir aquilo que o 25 de Abril prometia... É um pouco como a adolescência que tem em si imensas possibilidades que depois se vão malogrando.
Há no entanto uma conquista positiva: estamos num estado democrático – não há prisões políticas, não temos colónias, não somos um povo colonizador, somos um povo que ajudou a criar liberdades e independências. Apesar de tudo, há um serviço de saúde melhor. Há outra atitude. Mas houve uma possibilidade de criar um tipo de sociedade diferente que não foi possível, mas também porque ninguém quis, ou muito pouca gente quis...»

ps3 - [...] «Chegar a uma praia dá-me sempre uma certa embriaguez. Além disso a praia lava-me, renova-me, recria-me, fisicamente, moralmente, espiritualmente.»

;_)))



observações são bem vindas

2011-04-25

circunflexão


falemos sobre a Páscoa





















Habituado a contemplar o Amor e a Compaixão, eu esqueci toda a diferença entre mim e os outros. Habituado muito tempo a meditar sobre o meu Guru, desdobrando-se em aura sobre a minha cabeça, eu esqueci todos os que reinam pela força e o prestígio. Habituado como fui, a meditar sobre esta vida e sobre a vida, eu esqueci a angústia do nascimento e da morte. Habituado por muito tempo a aplicar toda a nova experiência ao meu próprio desenvolvimento espiritual, eu esqueci todas as crenças e todos os dogmas.


Álvaro Lapa, Instrução Pessoal, 1969

in Livre Circulação, Colecção Fundação Serralves, Palácio Anjos, Algés



observações são bem vindas ;_)))

2011-04-20

revoada



[...]
A noite ia alta, arrefecera o tempo, chovia lá fora, o leito era quente, macio... macio é o teu corpo, as mãos o afagam, o desejo desperta... os animais também não falam no acto do ajuntamento, mas os olhos... que expressão de amolecimento e liquescência, de quase desmaio é aquela?... Quando no céu lavado as estrelas brilham e é regelo o silêncio cósmico, espalha-se no ar o cheiro do primeiro dia da Criação... Quando as chuvas caem na terra sequiosa, levanta-se no ar o perfume do segundo dia da Criação... Quando na primavera as flores do prado exalam suas essências, rescende o ar ao aroma do quarto dia da Criação... Quando os amantes acordam suados do seu êxtase, incensa o ar a fragrância de Deus...
[...]

jametinhapensado Fernão Pérez, interludiando com a rainha-infante Tareja, in «o cavaleiro da Águia», de Fernando Campos






observações são bem vindas :_)))

2011-04-15

mel


«atenção, não peçam os morangos, que vêm com mel», jánostinhadito o Luís !














e que bem souberam...

;_)))




observações são bem vindas, obrigado

2011-04-06

FMI


com licença...

de José Mário Branco!


era assim




e se não chegar...






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Irish advice


From Ireland with love


Bit of friendly advice, Portugal

Sunday March 27 2011

Dear Portugal, this is Ireland here. I know we don't know each other very well, though I hear some of our developers are down with you riding out the recession.
They could be there for a while. Anyway, I don't mean to intrude but I've been reading about you in the papers and it strikes me that I might be able to offer you a bit of advice on where you are at and what lies ahead. As the joke now goes, what's the difference between Portugal and Ireland? Five letters and six months.

Anyway, I notice now that you are under pressure to accept a bailout but your politicians are claiming to be determined not to take it. It will, they say, be over their dead bodies. In my experience that means you'll be getting a bailout soon, probably on a Sunday.

First let me give you a tip on the nuances of the English language. Given that English is your second language, you may think that the words 'bailout' and 'aid' imply that you will be getting help from our European brethren to get you out of your current difficulties. English is our first language and that's what we thought bailout and aid meant. Allow me to warn you, not only will this bailout, when it is inevitably forced on you, not get you out of your current troubles, it will actually prolong your troubles for generations to come.

For this you will be expected to be grateful. If you want to look up the proper Portuguese for bailout, I would suggest you get your English-Portuguese dictionary and look up words like: moneylending, usury, subprime mortgage, rip-off. This will give you a more accurate translation of what will be happening you.
I see also that you are going to change your government in the next couple of months. You will forgive me that I allowed myself a little smile about that. By all means do put a fresh coat of paint over the subsidence cracks in your economy.

And by all means enjoy the smell of fresh paint for a while.
We got ourselves a new Government too and it is a nice diversion for a few weeks. What you will find is that the new government will come in amidst a slight euphoria from the people. The new government will have made all kinds of promises during the election campaign about burning bondholders and whatnot and the EU will smile benignly on while all that loose talk goes on.

Then, when your government gets in, they will initially go out to Europe and throw some shapes. You might even win a few sports games against your old enemy, whoever that is, and you may attract visits from foreign dignitaries like the Pope and that. There will be a real feel-good vibe in the air as everyone takes refuge in a bit of delusion for a while.

And enjoy all that while you can, Portugal. Because reality will be waiting to intrude again when all the fun dies down. The upside of it all is that the price of a game of golf has become very competitive here. Hopefully the same happens down there and we look forward to seeing you then.

Love, Ireland.

Sunday Independent


observações são bem vindas ;_)))

2011-04-05

ensaio ditoso



«A escrita do ensaio não quer dizer o dito», jámetinhadito João Barrento, in "O género intranquilo - anatomia do ensaio e do fragmento", da Assírio & Alvin*, 2010




ps - claro é que diz muito e bem mais
ps2 - por exemplo? por exemplo: "[...] A palavra do ensaio torna-se então como a da poesia: [...]"
ps3 - porquê? porque "Sem limites"


* os livros da Assírio & Alvin estão à venda em muitos locais mas também podem ser comprados na ... Assírio & Alvin, ao Chiado, num labirinto entre a Rua Garrett e a Rua do Ca-a-armo

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2011-04-03

Primavera ditosa






















avara de azul é a natura
salvo a celeste aventura,
o doce mar e, de candura,
a floração da energia pura

;_)))








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2011-04-01

dissolver, eleger, clarificar





















o presidente Cavaco aceitou o pedido de demissão do primeiro ministro Sócrates e decidiu dissolver a Assembleia da República e convocar novas eleições para o dia 5 de Junho de 2011

esta dissolução é uma sentença de divórcio entre eleitores e deputados, estes supostamente representantes dos primeiros mas bem sabemos que a jogar cada um pelo calculismo do seu partido político e não pelo eleitorado que os elegeu para um mandato de 4 anos

ou seja, tais supostos representantes do povo nem sequer foram capazes de um acordo dissolutório: as várias, ansiosas e crescentes moções de censura não foram aprovadas - o maior partido da oposição nunca aprovou as apresentadas pelos partidos com menor representação parlamentar nem apresentou a sua própria moção de censura ao Governo

ainda assim o desacordo poderia culminar na Assembleia da República, se o Governo apresentasse eventual moção de confiança e esta lhe fosse recusada, sempre seria uma decisão própria e não alheia, intramuros e não sentenciada de fora, em S. Bento em vez de requerida a Belém

mas o procedimento seguido foi o da apresentação ao presidente de um pedido de demissão do primeiro ministro, ontem aceite com o desfecho presidencial dissolutório e antecipada convocação eleitoral

constitucionalmente e em teoria, havia inúmeras hipóteses de entendimentos partidários para outras soluções governativas, aliás já submetidas à consideração dos diferentes partidos logo no início da legislatura que agora finda, por iniciativa do partido vencedor das anteriores eleições legislativas, com maioria relativa, a que só o silêncio respondeu

e o ruído desse mesmo silêncio minou até ontem uma legislatura que nem a meio termo chegou, aparentemente acreditando-se que uma nova eleição constituirá maior legitimação - porém, quando não se respeita a legitimação anterior, nada assesta que se respeitará a próxima

no entanto, o que formalmente (cfr. o sobredito discurso dissolutório) se afirma acreditar é que as novas eleições nos trarão uma "clarificação"!

Cavaco jametinhadito isto mesmo: «Concluí, assim, que só através da realização de eleições e da clarificação da situação política poderão ser criadas novas condições de governabilidade para o País.»

o raciocínio é tardio (sabia-se desde o referido silêncio de todos os partidos da oposição em resposta à solicitação de propostas de soluções de governabilidade que o partido vencedor havia suscitado, ou seja, desde o início da legislatura da maioria relativa do Partido Socialista) mas confere com o actual "sentimento geral", bem como com as actuais expectativas calculistas das diferentes forças político-partidárias e seus principais intervenientes, julgando ganhar mais votos nas próximas eleições que nas anteriores - ou, ao menos, que nas eleições a realizar em momento posterior da legislatura ou, como seria normal, no seu final

a realidade, porém, não faz antever essa panaceia eleitoral pretendida pelos partidos políticos, requerida pelo primeiro ministro e, a reboque, alegada por Cavaco: é que os partidos são exactamente os mesmos, os eleitores são sensivelmente os mesmos e os principais intervenientes são também os mesmos que desencadearam a crise

no capítulo dos políticos intervenientes, afinal os principais responsáveis pela actual crise política, há apenas duas ligeiras (mas porventura decisivas) mudanças:

- nova liderança do PSD, desde a derrota nas anteriores eleições: Coelho chegou, venceu e marinou durante um ano e é agora o dirigente máximo do PSD que se apresentará ao próximo sufrágio, embora seja o mesmo responsável do PSD que ao chumbar o PEC IV, em vez de procurar e propor uma solução alternativa, deu os passos para concretizar o propósito de Sócrates de se livrar da espada quotidiana em que se tonara o Parlamento, permanentemente pendente sobre a cabeça do Governo

- segundo mandato de Cavaco, afinal o seu objectivo primeiro, a que sacrificou tudo e todos, incluindo, com encantatória arte maquiavélica, o logro do pacto firmado com Sócrates para a sua eleição presidencial em 22 de Janeiro de 2006

mas se todos querem, todos têm e aí está mais uma vez a demonstração da máxima de que se merece o que se está disposto a aceitar

provavelmente mais do mesmo!!

mas também não nos poderemos admirar se com este encadeamento de cinismos calculistas apenas obtivermos menos do mesmo!!!

e é pena, porque se é preciso e vale a pena mudar, pena maior é que a mudança nos seja imposta em vez de querida, assumida e protagonizada por nós

a 5 de Junho, à noitinha, ficaremos apenas perante o que já hoje sabemos, temos e merecemos

só não queremos ver...

;_)))




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ps - só por graça, é impressionante a actualidade da análise de Eça de Queirós em carta de 1891, endereçada ao conde de Arnoso, então secretário do rei - a quem Eça efectiva e piedosamente se dirigia, afinal, errando (também falhou, por pouco, o momento da revolução republicana: disse, por interposto interlocutor espanhol, "daqui a dez anos" e foram quase 20...) propositada e grosseiramente as apreciações quanto à animosidade e ameaça que já pairavam sobre a real pessoa de D. Carlos; no mais, onde o escritor escrevia Espanha leia-se hoje Europa (ou Espanha!?) mas sobre a impossibilidade de mudança autêntica é de uma agudeza ainda hoje dolorosa

2011-03-28

realeza



























hoje, conforme noticiado, o Príncipe Charles e Camilla (os dois 'elles' simbolizarão títulos nobiliárquicos, jametinhamdito, mas a «realeza» é outra coisa e não é exclusiva nem sinónimo da monarquia ...) iniciam em Portugal um périplo à Primavera, seguindo-se os reinos de Espanha e Marrocos

a visita é oficial e embora Carlos não tenha sido eleito, não seja chefe de Estado, nem seja rei, será recebido pelo presidente e pelo primeiro-ministro de Portugal

em 1987 e 1988, Carlos visitou Portugal com a Princesa Diana, rectius, Sua Alteza Real Princesa de Gales

Carlos esteve cá depois a ver a nossa EXPO, que dura desde 98 mas agora vem com a Duquesa da Cornualha e agenda preenchida

ambos, em demanda nova de energias, visitarão Évora certamente sob os bons auspícios de Diana, a deusa triforme dos animais, da caça e da lua, tudo se conjugando para honrar o templo ou o que dele resta desde o tempo da administração romana deste recanto da Península Ibérica

oxalá encontrem o que procuram, sigam por bom caminho e voltem sempre

;_)))






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2011-03-22

coligação


da página do PPD/PSD na internet:

«5. The final outcome of the process initiated with this surprise announcement could be favorable if political parties and social partners are more supportive than they have been in the last two years of a well designed program of fiscal consolidation and structural reforms. Indeed, a broad coalition for change would improve the political legitimacy of such a program as well as current market perceptions of Portugal’s risk.
Lisbon, 21 March, 2011»

ou seja, ontem, sem avisar o País, o maior partido da oposição jametinhadito ao estrangeiro, à Europa, ao mundo, aos mercados (por ordem crescente de importância!) que o problema se resolve é com uma bela coligação, digamos, abrangente

é bom que as coligações sejam abrangentes (Alberto João Jardim apareceu na TV a dizer que isto só lá vai com uma maioria constitucional, por contraponto à maioria absoluta, que considerou insuficiente para o efeito) e que haja propostas de lançar mãos à obra para fazer o trabalho que é preciso fazer

mas, convém recordar, quando ganhou as últimas eleições legislativas, com maioria simples, o partido do Governo perguntou a todas as forças partidárias por propostas de governabilidade, especialmente em função da conveniência de abrangência para assegurar a estabilidade governativa

nessa altura, as forças partidárias consultadas pelo partido do Governo declararam nada ter a declarar, argumentando posteriormente que o partido vencedor deveria governar sozinho e que a maioria relativa não impediria a estabilidade governativa porque a oposição seria responsável

será que o PPD/PSD entende agora diferente?

sentir-se-á preparado para partilhar o poder?

e para integrar uma coligação abrangente provocará eleições antecipadas?

como facto novo a justificar a mudança de avaliação nem pode alegar-se a derrota do candidato apoiado pelo PS nas eleições presidenciais - isso já aconteceu antes...

parece um mero atirar o barro à parede mas a antecipação das eleições, apesar do folclore dispensável, poderia substituir o estado retórico do País por alguma acção, que a conversa já cansa

uma vez que não foi possível uma coligação com a actual proporção resultante da anterior escolha eleitoral, que a continuidade do Governo depende sempre da oposição em maioria e a confirmar-se a intenção do PPD/PSD, volte a decisão ao gesto eleitoral, assim o queira o Primeiro-Ministro ou Presidente da República

ainda assim, a preconizada coligação abrangente deveria ser anunciada e assumida pelas forças envolvidas








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2011-03-16

guerra?

...

para Mr. Cavacô:



o re-empossado Silva regista mais um excerto realista em seu grave discurso, incentivando os precários jovens rebeldes nos terão a seguir o "exemplo de determinação com que há 50 anos partiram para a guerra" ;(

lamentável, esta declaração presidencial, infelizmente dentro do padrão habitual de Cavaco Silva, chovendo no molhado sobre milhares de jovens que perderam a sua juventude em carne para canhão da política do colonialismo salazarento que o mundo inteiro condenou e sucessivas gerações portuguesas amargaram e pagaram com a vida e com a integridade física, própria ou dos seus queridos, num enredo trágico ainda não sarado nem entendido!!

enfim, esqueçamos o que diz Cavaco, sendo certo que há legítimas e diferentes perspectivas, também em forma de Arte, em boa hora, felizmente e com direito a um jametinhasdito de júbilo por haver gerações que procuram compreender melhor o passado, agir melhor no presente e construir um futuro melhor, decididamente sem guerra e antes exortando a Vida!!!

;_)))



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2011-03-11

ditosa nascente


«À nascente, aos limos que tem nos chegamos.

Como a intranquilidade dos traficantes, ocultando nos

rochedos seus fardos de aguardente.

Entretanto, no alto da falésia, um pouco loucas as gaivotas

vão seguindo o rasto da charrua.»





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2011-03-07

encontro livreiro


e jametinhamdito que a 27 de Março, a partir das 15:00H, há novo «encontro livreiro», destinado a "gentes dos livros" - uma elite, como bem lembrava José Saramago - e melhor explicado num curioso, interessante e exclamativo blog designado Isto não fica assim!

a sede social desta Holding é na Av. 22 de Dezembro, nº 23 A/B, em Setúbal - num instante se lá chega - onde mora a Livraria Culsete, assim como se uma combinação de Cultura e Setúbal...

e os requisitos de participação consistem na titularidade de interesse e gosto pelos assuntos dos livros (a tal saramaguiana elite, afinal...) seja na óptica do utilizador, o venerável leitor, seja na do produtor (aqui é que são elas ... e eles) ou comercializador, editor, tradutor, coleccionador, revisor, crítico, promotor, ilustrador, embrulhador, catalogador ...

eh eh ... agora a sério, requisito é ser amigo do livro ou amigo do amigo do livro


















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Luanda


às 02:30H da matina as autoridades angolanas detiveram 20 pessoas na Praça 1º de Maio, em Luanda, incluindo jornalistas: Ana Margoso, Pedro Cardoso, Afonso Francisco e Idálio Kandé


um jametinhasdito preocupante quanto ao direito de livre expressão e livre manifestação num dos regimes mais corruptos do mundo, há 32 anos no poder

;(((




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2011-02-26

levitar



a arte de levitar é de muito difícil domínio, bem sabemos, reservada que está a raros eleitos, santos ocidentais ou ascetas orientais e pouco mais

mas pode acontecer, entre nós, simples mortais

há dias, numa sessão da versão nacional dos concursos caça-talentos actualmente em voga, um dos concorrentes apresentou-se ao júri, ao público e ao vexame televisivo, anunciando o seu propósito de ... levitar!

a coisa ia enroupada em truques de magia de trazer por casa e, com a prestimosa colaboração da apresentadora, a dado ponto surgia o número propriamente jametinhasdito da levitação

naturalmente, o acto suscita alguma expectativa, pois enquanto podemos todos adquirir nas lojas da especialidade os adereços e instruções para os tradicionais truques de cartas de jogar na manga do casaco, da pomba na lapela e do coelho na cartola, ou da moeda atrás da orelha, do lenço infinito e colorido ou da corda que se corta ou ata e de cada vez se refaz, já inspiram maior nervoseira os jogos de espelhos, as houdinices e aquilo de serrar a meio a assistente do mágico, tal como o momento de levitação

chegado o dito momento, a glamorosa Bárbara Guimarães puxa a cadeira que servia de almofada ao suposto levitante, que acto continuo desabou de cabeça no chão, com estrondo e alguma apreensão para a parte do público que se preocupou com a integridade física do participante

de resto, alguma estupefacção e desalento entre o restante público, o júri e a apresentadora, mas não do artista, que se ergueu quando pôde e logo gesticulou em comemoração de vitória, aumentando a perplexidade da assistência

mas o ridículo não se ficou pelo desastrado número nem pelo enxovalho a que o jovem aceitou submeter-se e de pronto a apresentadora se dirigiu ao concorrente humilhado mas estranhamente em júbilo e perguntou-lhe: diga lá, alguma vez tinha levitado?

bem, a pergunta deixa qualquer racional a levitar: então ela dispôs-se a puxar a cadeira de sustentação da cabeça do rapaz, desamparando-o, sem antes ter feito essa pergunta e sem ter ensaiado previamente?

e se o miúdo tivesse partido a cabeça ou lhe acontecesse algo de grave em sequência do temerário puxão da cadeira?

é que uma coisa é vender humilhações a retalho, por atacado e sem escrúpulos nem ética, como acontece com o uso e abuso televisivo deste género de programas, recorrendo a estratégias vexatórias e patéticas para ganhar minutos de audiência a qualquer custo, geralmente a baixo custo, mesmo perante verdadeiras pérolas que se encontram em muitos candidatos e na genuinidade das suas legítimas ilusões, como o do emocionante exemplo em título

outra bem diferente é atentar contra a saúde e a vida alheias!!

neste caso, uma Barbaridade!!!



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2011-02-25

água



a Assembleia da República aprovou uma Lei - a do OE2011, proposta pelo Governo - onde se inclui uma alteração de deixar os cabelos em pé: os créditos dos serviços municipalizados por atraso no pagamento do fornecimento de água passam a execuções fiscais!


jametinhamdito que em vez de consumidores, há "executados" e "penhorados"!!


além do mau aspecto de se receber um aviso de penhora por atraso no pagamento da conta da água, o problema é que as custas das execuções fiscais são uma fortuna, em valor acima do custo da água e respectivas alcavalas!!!


já o Estado nada paga ao consumidor quando se atrasa...


provavelmente esta enormidade será corrigida e os prejuízos causados pelos deputados aos consumidores, aos serviços públicos e ao País serão minimizados - oxalá - e certamente nunca serão contabilizados e nunca ninguém será responsabilizado por tamanha entropia e pelos transtornos causados à vida das pessoas


mas vai sendo mais flagrante a urgência de se reduzir em número substancial os 230 empregos de deputado, para evitar a proliferação de tão irracionais e atabalhoadas Leis


e se é para meter tanta água, mais urgente ainda: os deputados deviam passar a beber água da torneira




livra ;_)))







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2011-02-23

xeque árabe


jámetinhamdito que a Europa, vergonhosamente, se apressa agora a descobrir a inaceitável corrupção de Ben Ali, Mubarak ou Kadhafi, tendo antes feito interesseira vista grossa à notória falta de democracia e negócios sujos na Tunísia, no Egipto e na Líbia...

é bem verdade!

em alguns casos de ditaduras impiedosas prolongadas, até pode ter havido sanções ou embargos, por sinal amplamente criticados, mas geralmente contra países sem grandes recursos!!

só que importa lembrar que a culpa não pode ser só da comunidade internacional, dos parceiros ou de países terceiros!!!

a principal responsabilidade continua a ser dos ditos ditadores sanguinários que se eternizaram abusivamente no poder; a seguir, de quem os apoia internamente; e depois, infelizmente, de gerações sucessivas do povo que pactuou e pactua com tais senhores, até um dia a juventude acordar desesperada e tentar mudar, com o preço da própria vida e de muitas outras vidas inocentes, assim a situação desavergonhada se disponha a matar manifestantes pacíficos e desarmados em vez do tradicional encarceramento e discreta eliminação!!!

mas atenção: não é só a tenda do Kadhafi que está a estrebuchar em xeque, despeitada e impiedosa, muitos palácios por este mundo fora estão certamente a reforçar a repressão, a trancar portas e a exportar fortunas, colocando familiares a salvo no estrangeiro, pois se em Lisboa, Gdansk e Timisoara foi possível restabelecer liberdade, esperança e democracia, longe mas muito longe disso ficaram Tiananmen, Minsk, Teerão, Cabinda, Moldávia e Birmânia, só para dar alguns exemplos à flor da pena e esquecendo - até quando? - Luanda, Havana e Caracas

oxalá a juventude seja capaz de encontrar formas harmoniosas de superação da culpa de tantas décadas de conivência das gerações antecedentes e seja capaz de expulsar os esbirros sem os substituir por outros da mesma estirpe ou porventura menos civilizados

sim, que ainda a procissão vai no adro... e se muitos Países europeus temem agora a migração massiva dos ... situacionistas, colaboracionistas e outros oportunistas expulsos pelas revoltas populares árabes, a menos que sejam portadores de estupendo cheque árabe, certo é que mais à contraluz se realça a necessidade de uma política de acolhimento de migrantes continente africano, de modo a assegurar um reequilíbrio harmonioso Norte / Sul, económico, demográfico e cultural

;_)))



ps - nem por acaso, a secção "oil & energy" da Reuters acaba de despachar uma curiosa partilha de preocupação sobre a reacção líbia à revolta popular contra 42 anos de tirania, assimilando a vizinha e eterna euro-candidata Turquia aos mais ousados Estados europeus que já se manifestaram - Portugal, entre outros países, parece estar a salvaguardar a integridade e o regresso dos seus nacionais, antes de maiores declarações, estando ainda muito presente a célebre visita de Kadhafi e as vicissitudes da sua bela tenda beduína (entretanto oferecida ao amigalhaço Chavez, que pretendia dar-lhe uso nas cheias de Dezembro passado em Caracas) em que assentou arraiais e recebeu a nata portuguesa em 2007, no Forte de São Julião da Barra, bem como as 4 (!) visitas de Estado feitas por Sócrates nos últimos anos, a mais recente em Setembro passado, para uma reunião de 20 minutos entre 10 países ribeirinhos do Mediterrâneo e uma noitada de comemorações da revolução líbia, incluindo a especial distinção de ir para a festa no carro do próprio Kadhafi, tudo sob a justificação dos 35 mil milhões de euros em negócios entre Portugal e a Líbia, destacando-se o petróleo para a Galp, a construção civil e... numa prova de isenção das confissões, o Banco Espírito Santo...


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2011-02-21

Todos para a rua!!!!


jametinhamdito que circula com insistência mensagem a convocar 1 milhão de pessoas para a Avenida da Liberdade pela demissão de toda a classe política !?

agora até já tem data marcada mas o estilo é de aproveitamento da bolha dos movimentos contestatários contra as ditaduras de décadas da Pérsia e da Arábia

na substância não haverá grandes afinidades quanto à razão de ser das revoltas populares da Tunísia, do Egipto e de outros países com ditadores e nepotismos instalados há muito, com sistemas de controlo social e censura, sem eleições, comunicações nem partidos políticos livres, sem direitos de livre reunião, sem a generalidade de direitos de liberdade de circulação, reunião, expressão, crítica e contestação que vigora em Portugal

então quais são as razões invocadas? a julgar pela primeira e pela última, além de pura e simplesmente demagógicas, são de um nível patético de preconceito e desinformação, de todo o modo com manifesta inversão de sentido da relevância e das prioridades

«1. Reduzir as mordomias (gabinetes, secretárias, adjuntos, assessores, suportes burocráticos respectivos, carros, motoristas, etc.) dos três Presidentes da República retirados;

30. Pôr os Bancos a pagar impostos.»

outras, entre as 30 articuladas, pertencem à esfera do senso comum

«14. Controlar o pessoal da Função Pública (todos os funcionários pagos por nós) que nunca está no local de trabalho. Então em Lisboa é o regabofe total. HÁ QUADROS (directores gerais e outros) QUE, EM VEZ DE ESTAREM NO SERVIÇO PÚBLICO, PASSAM O TEMPO NOS SEUS ESCRITÓRIOS DE ADVOGADOS A CUIDAR DOS SEUS INTERESSES....;

15. Acabar com as administrações numerosíssimas de hospitais públicos que servem para garantir tachos aos apaniguados do poder - há hospitais de província com mais administradores que pessoal administrativo. Só o de PENAFIEL TEM SETE ADMINISTRADORES PRINCIPESCAMENTE PAGOS... pertencentes ás oligarquias locais do partido no poder...

16. Acabar com os milhares de pareceres jurídicos, caríssimos, pagos sempre aos mesmos escritórios que têm canais de comunicação fáceis com o Governo, no âmbito de um tráfico de influências que há que criminalizar, autuar, julgar e condenar;»

mas são razões de sempre, dificultando a atribuição de alguma credibilidade a tão ambiciosa iniciativa: 1 milhão de pessoas na Av. da Liberdade, para controlar funcionários absentistas e encomendas duvidosas?

parece demasiado forçado, tanto mais que se cola ao início do novo mandato presidencial e à catadupa de moções de censura...

haverá conjugação?

ou será mero trolaró?

enfim, certamente nesse dia haverá algo mais útil para fazer!

;_)))






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2011-02-15

das arábias



eis o caro preço da liberdade: chegou a hora de reivindicar

egípcios e tunisinos são povos realizadores mas a tentação de desatar a reclamar é grande

começou no Irão, alastrou a regiões árabes, em busca de liberdade contra décadas de ditaduras, e está de volta ao Irão, cujos ditadores se apressaram a clamar vitória em revolução alheia e vão reprimindo a revolta intramuros

em alguns casos, a ditadura foi decapitada, mas ainda não se sabe se resiste, persiste ou desiste, com exércitos e ex-governantes ainda instalados

certo é que sem um ditador o povo já começa a poder reclamar de si próprio, embora seja difícil lidar com a culpa de anos de consentimento ou contemporização

oxalá os povos árabes saibam dar boa resposta às suas legítimas aspirações, sem deslizar para outras formas de usurpação do poder e sem cair na ratoeira de Lampedusa, mudando apenas o ditador para tudo o mais ficar na mesma





















nota: crédito ao cartunista Bennett e ao tenessiano Chattanooga Times Free Press, bem como à gentileza de JMC-O


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2011-02-11

modo pausa


a descoberta de uma pessoa falecida há anos num apartamento vendido em execução fiscal deve merecer alguma reflexão

primeiro pela constatação de uma vida só, sem ajuda, abandonada ao esquecimento

situação que se repete extensivamente nas nossas sociedades, com muito isolamento e alheamento, em especial na população sénior

como foi possível chegar a este ponto?

alerta!

o perigo é real, pode e vai repetir-se e voltar a acontecer (como já aconteceu) nova tragédia próximo de todos nós

neste caso, ou melhor, em casos destes, é ainda mais difícil, inútil e inconsequente deitar as culpas em Sócrates e Cavaco, no Governo ou no Estado, no sistema ou na globalização

a culpa é nossa, de todos nós, caminhando para o vazio, por vezes depressa ou mesmo depressa demais, para lado nenhum

claro que existe a segurança social, as igrejas, o voluntariado - mas todos esses meios deverão ser complementares a formas de organização mais elementares de solidariedade, em que os seres humanos estabelecem laços, de pertença a famílias, a vizinhança, a comunidades

porque andarmos todos a circular de carro em avenidas cheias não faz de nós uma comunidade

morarmos muitos no mesmo prédio não faz de nós vizinhos

ter um apelido comum não nos torna familiares

os laços verdadeiros são os que nós construímos ao ver e querer saber uns dos outros, os que resultam de mútuo conhecimento e reconhecimento, da convivência e partilha, das decisões comuns, da entreajuda, da diversificação da nossa esfera de relacionamentos e do seu fortalecimento e vitalidade

a chama acesa, afinal, para além do umbigo

em vez de apagada e ensimesmada

dá que pensar...




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2011-02-04

Ode Triunfal


Álvaro de Campos

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical --
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força --
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés -- oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos da estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos pianos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l'Opera que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-la-hó la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes;
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer,
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes --
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraitre amarelos com uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes --
Na minha mente turbulenta e incandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamento, políticas, relatores de orçamentos;
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o amor antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hó jóquei que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levantado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos -- e eu acho isto belo e amo-o! --
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje. . . )

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)



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