mas nem sempre queremos ver onde o vazio enche de fome tantos quantos minguam sem ter nem haver
se ao menos o renascer do Menino nos abrir o coração para os ver, os olhos para os conhecer e as mãos para lhes tocar, Seremos por Ventura, seus irmãos
na era da especulação e da espectacularidade, nem tudo é consumo e entretenimento, é bom que haja pensamentos elevados, ideias com sentido, espírito crítico, acção realizadora e impulso de mudança
em 1964, a revista "Notícia", de Angola, seleccionou poucos versos natalícios de entre grande quantidade de produção alusiva à época - o que se diria hoje em que só em Portugal se publicam 44 livros por dia, a maior parte dos quais vende apenas escassos exemplares no próprio acto do lançamento, além da extraordinária profusão de edições on line, mais ou menos avulsas e porventura ainda mais efémeras - e respigou um poema publicado em "O Namibe", um verdadeiro jametinhasdito de alerta que se mantém actual e que aqui fica com o devido agradecimento à amabilidade e dinamismo de divulgação cultural da Dra. Ivone Vilares e à preservação da memória e espírito de partilha da escritora Maria de Lourdes Antunes
PAI NATAL
Pai-Natal,
Gorducho como és,
Com esse ventre obeso,
Como podes passar nas chaminés
Sem ficar preso?
E como podes inda sem perigo,
Com essas botas grossas, quando avanças,
Não perturbar o sono das crianças
Que adormeceram a sonhar contigo ?!
Como podes passar,
Com essas barbas grandes e nevadas,
Sem medo de assustar
Crianças que se encontrem acordadas ?
Eu sei, eu digo-te a razão,
Embora se me parta o coração !
É porque tu, risonho Pai-Natal,
Só entras em palácios de cristal,
Por chaminés de mármores e jade,
Onde o rotundo ventre
Passe, deslize e entre
Libérrimo, em perfeito à vontade !
Como podem as botas vigorosas
Rangerem um momento
Se alcatifas caras, preciosas,
Se espreguiçam por todo o pavimento!
Nem podes assustar
Crianças que se encontrem acordadas
Porque tens o cuidado de tirar
Essas revoltas barbas tão nevadas !
E assim é,
Risonho Pai-Natal de riso e gestos ledos,
Vais aos palácios ricos por teu pé,
Vasar o grande saco de brinquedos !
Antes fosses, risonho Pai-Natal,
Na noite friorenta, de portal em portal,
De tormenta em tormenta!
E descesses aos lares pobrezinhos,
Onde há doridas mães talvez chorando
Ao seio acalentando
Os pálidos filhinhos !
Ou fosses campo em fora em longas caminhadas,
A descobrir crianças sem abrigo,
Adormecidas nuas e geladas
E inda a sonhar contigo!
Mas não são esses, não, os teus caminhos,
Tu que vestes veludos e arminhos !
Quando Jesus nasceu,
No rigoroso frio do Inverno,
Nu e natural,
Sem outra bênção que o olhar materno,
Sem mais calor que um bafo irracional,
Onde é que estavas tu, Oh ! Pai-Natal ?!
Por onde andavas tu, Oh ! Pai-Natal ?!
Sei bem onde é que estavas !
Sei bem por onde andavas !
Andavas entre risos e folguedos,
Já com as barbas brancas e os bigodes,
A despejar o saco de brinquedos
_Na chaminé de Herodes!...
Angelino da Silva Jardim
Publicado em “O Namibe” e na revista “Notícia”, em Angola, 1964