2011-02-04

Ode Triunfal


Álvaro de Campos

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical --
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força --
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés -- oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos da estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos pianos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l'Opera que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-la-hó la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes;
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer,
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes --
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraitre amarelos com uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes --
Na minha mente turbulenta e incandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamento, políticas, relatores de orçamentos;
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o amor antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hó jóquei que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levantado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos -- e eu acho isto belo e amo-o! --
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje. . . )

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)



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2011-01-28

post-gnóstico eleitoral


reconfirmado: o contrato presidencial é por 10 anos, assim já adquirido na consciência geral (e nos acordos entre os poderosos partidários, como foi o caso Sócrates-Cavaco para 2006-2016) mesmo se algum idealismo ainda resiste e diz não, em heróica utopia

porém, a realidade confirma a realidade e vo(l)ta tudo como está, directamente (eis o esplendor da democracia e toda a legitimidade aos vencedores) ou através da divisão própria ou alheia e ainda por via da ignorância expressa em votos brancos e nulos suficientes para ditar outro resultado - ou ao menos um segundo escrutínio, tal como havia sucedido em 2006

de facto, votar branco ou nulo favorece o candidato mais votado, contribuindo para o cômputo dos 50% requeridos para haver eleição à primeira volta - e há boas razões para desconfiar se o resultado final seria o mesmo numa segunda volta, pelo menos em 2006 era muito duvidoso

votar branco ou nulo, tal como a abstenção voluntária, é como pregar pregos na água, renunciando ao poder de decidir conquistado para o povo em 25 de Abril de 1974 - quem vota branco, nulo ou se abstém faz o mesmo a que eram obrigados os portugueses antes de 1974: vê o seu destino definido pelos outros, aleatoriamente ou, porventura, por inefáveis messias salazarentos dos novos tempos

e não foi acidental a comparação de Rui Rio, equiparando Cavaco a Salazar com indisfarçável orgulho, logo no início noite eleitoral

é que muitos portugueses (mais de metade) pretendem mesmo livrar-se do incómodo direito de voto, abstendo-se de exercer a difícil escolha do seu próprio destino, remetendo-se ao silêncio acabrunhado da abstenção e do voto branco ou nulo, ainda que numerosos e até esclarecidos lhe atribuam um especialíssimo e personalizadíssimo significado, geralmente grandioso - para dar uma lição aos políticos, como se eles se importassem e como se os candidatos fossem os titulares do poder, em vez de apenas o exercerem em nome do povo, o verdadeiro soberano

engano de avestruz: em democracia o poder é do eleitor - pelo que a bofetada eleitoral de quem se abstém, e vota branco ou nulo é apenas em si próprio e não nos representantes escolhidos, afinal, por quem fez o que há a fazer, exercer o seu direito e cumprir o seu dever através do voto validamente expresso num dos candidatos - e outros poderiam ser os candidatos, para isso mesmo serve a consagração constitucional do direito a eleger e ser eleito

no limite e por absurdo, para quem defende a virtualidade da abstenção e do voto branco ou nulo como forma de expressão eleitoral, com a lei actualmente em vigor, basta ver que se todos os cidadãos menos um se abstivessem e votassem branco ou nulo seria o único voto validamente expresso a escolher o presidente ou os destinos do País

mas ainda que a lei (e a Constituição) fosse alterada para dar algum nexo ao voto branco (e porque não à abstenção e ao voto nulo? eventualmente obtendo-se uma declaração notarial do ... "não-eleitor" a explicar ao mundo qual o insigne atributo oculto no seu inexpressivo gesto) ficaríamos com o problema-limite por resolver: em caso de maioria (já agora, simples, qualificada ou absoluta?) de votos brancos ou nulos (da abstenção já temos exemplos bastantes) quem se encarregaria de representar o eleitorado soberano? os não eleitos ? repetindo o acto eleitoral? proibindo a candidatura dos anteriores candidatos? para sempre ou só dessa vez? e mudando de lista ou partido? ou de programa eleitoral, se o tiver?

da pessegada do cartão do cidadão versus nº de eleitor ainda não estamos totalmente conversados: o PSD insiste em pedir a demissão do Ministro mas em coerência, se acha que isso influiu no processo eleitoral, deveria requerer a repetição do acto em todas as mesas de voto onde se verificou essa perturbação - mas alguém acredita se pretendem ou arriscam alguma coerência?

mas temos tempo para reflectir, aí estão mais 5 anos - um novo ciclo, com o mesmo presidente que se desinteressa pela cultura

tal como a maioria dos portugueses, ufana-se de nunca ter ido à ópera nem ler livros ou jornais, espelhando exactamente o que vai na cabeça dos seus eleitores - e é bom lembrar que a votação em Cavaco é mais expressiva nos locais onde a instrução é mais básica ou inexistente, levando a crer que se o País fosse totalmente analfabeto Cavaco atingiria quase 100% dos votos, uma vez que espelha o País que temos - e que ainda vamos continuar a ter, no novo ciclo de menos do mesmo decidido em 23 de Janeiro do ano da graça de 2011

;(((



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2011-01-27

cortes salariais


o Prof. Luís Menezes Leitão, no blog "Albergue espanhol", publicou há dias e vem defendendo, um texto em que procura refutar as teses de constitucionalidade da medida governamental (das normas que a concretizam) que determina cortes nos salários de alguns funcionários públicos - e para o efeito, recorre a citação (de um extracto) do Manual do Prof. Marcelo, o verdadeiro iniciador das "conversas em família" de que temos uma réplica aos domingos ou quando dá jeito

é inquestionável a competência jurídica do Prof. Luís Menezes Leitão, da Faculdade de Direito de Lisboa, bem como a sua legitimidade para questionar e contrariar conclusões opostas de teses de outros ilustres Profs., da mesma ou de outras Universidades

mas é claro que, se o post revela os melhores sentimentos, escusado seria o apelo ao antes do 25 de Abril de 1974, além de não ser possível nem comparável e nada haver a glorificar em tão sanguinários tempos, mesmo se muito doutos como o citado professor que o muito respeitável blogger reivindica para avalista da tese expendida

e é também claro que todos nos sentimos aviltados pelo gravoso das medidas excepcionais que os tempos de crise obrigam a invocar

mas tem que se reconhecer algum realismo na necessidade premente de gastar menos do que o que se tem

é como em nossas casas - seja a culpa de quem for, quando já não temos mais dinheiro, não o podemos gastar

era assim com muitos de nós quando vivíamos com os nossos pais, era assim quando vivíamos sozinhos e é assim ainda hoje e desde que temos Família a nosso cargo

tal como tantas pessoas e famílias, gastando o que não tinham, acabaram por ter que pagar custosos juros, perder património ou até, infelizmente, desestruturar a própria ligação familiar, economia comum e projectos de vida em conjunto

isso mesmo pode acontecer a um País - tornar-se insolvente, perder património, desestruturar-se

no lar, quando a hora é de aperto, toca a rebate e há que dar as mãos em união, passar mal e fazer sacrifícios para salvaguardar o mais importante e um futuro condigno

no País, depois de muitos anos consecutivos de défice, crescente e até galopante, tem que haver um esforço de acalmia e tem que haver superavit, tem que haver anos de poupança, custe o que custar

a redução dos salários da função pública pode ser constitucional ou inconstitucional, depende das leis e das diferentes interpretações, muitas bem legítimas apesar de aparentemente contraditórias mas de certeza dispensando a invocação dos algozes, muito menos a sua glorificação serôdia - só por falta de honestidade intelectual ou pura má fé se deusifica o inefável seguidor do botas a propósito do que permite ou não a actual Constituição

é compreensível, merecidamente, toda a solidariedade para com os funcionários públicos afectados - os menos vulneráveis, só a partir de certo rendimento e de forma progressiva são atingidos pelos cortes

mas desde há vários anos que muitas empresas no sector privado tiveram que reduzir salários aos seus colaboradores e muitas dessas situações ainda hoje perduram (calhou a muitas famílias e vai continuar assim) e nem todas puderam respeitar o mesmo patamar de salvaguarda e conceitos de progressividade de rendimentos, e nem todas se ficaram pelos cortes aplicáveis à função pública, pois em muitos casos foram bem mais drásticos

já para não falar nas empresas que tiveram que fechar, pelos que os respectivos trabalhadores ficaram sem o respectivo posto de trabalho assegurado - prerrogativa de que só mesmo os funcionários públicos podem regozijar-se, nada havendo a opor, diga-se

mas teria ficado muito bem na fotografia, aos funcionários públicos, aos reivindicativos sindicalistas da função pública e a autorizados (ainda assim, apesar do apoio reclamado aos doutrinadores do antigo regime) professores, terem então manifestado solidariedade para com esses trabalhadores do sector privado que perderam parte dos seus salários ou mesmo o próprio posto de trabalho

ou, ao menos, como mínimo ético para iludir o cinismo que não disfarçam, fazer-lhes uma justa referência pelo antecedente sacrifício, sem voz nem garantias ou regalias de que só os funcionários públicos podem beneficiar - e sem pareceres de poderosos jurisconsultos ou bloggers bem intencionados


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2011-01-23

branco é...





a galinha eleitoral botou mais do mesmo e a democracia é isto mesmo: ovos postos, contados, fica tudo como está, então está bem assim e continua a valer a bela máxima: merecemos o que aceitamos!

mesmo que, nos tempos mais próximos, falte alguma paciência para os queixumes do costume, a cor da realidade obriga a cerrar fileiras, focar e, porque resta lutar e porque que é democrático, importa continuar a trabalhar

e fortemente

;_)))


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ps - nestas eleições, muitos cidadãos, heroicamente, enfrentaram a resignação, o frio, a desinformação, a ocultação e o branqueamento, mais a incompetência da atribulação entre o cartão único (???) e o nº de eleitor, ampliando a propensão para a abstenção, infelizmente de sempre mas de modo acrescido em processos eleitorais de segundo mandato presidencial: há que os referenciar e reverenciar!

ps2 - como nota significativa à boca das primeiras projecções de reeleição do Presidente, o primeiro comentário de Rui Rio foi para comparar Cavaco a Salazar, com o orgulho e o embevecimento que muito caracteriza tão alto responsável do PPD/PSD!!

ps3 - comparando resultados, Alegre não beneficiou dos apoios partidários que cinicamente lhe foram prestados com renitência e por vergonha de nova humilhação do BE e do PS, que assim ficam outra vez mal na fotografia - desta vez não era só o rabo escondido, estava o gato inteiro de fora!!!

2011-01-20

voto eficiente


insidiosas correntes propagam oportunístico apelo a voto branco (a pretexto de que assim seria substituída a lista de candidatos) ou nulo por inscrição satírica (antigamente, ao menos, era "revolucionária"...) em protesto contra os "esqueletos no armário" (a propósito, há um interessante blog sobre o assunto no ditoso AZBlog) de vários ou de todos os concorrentes

ora, importa refutar o boato insistente na pessegada do voto em branco ou da sua criativa grafitização

trata-se apenas de reforçar as reais e assustadoras possibilidades de reeleger o candidato residente, procurando confundir os eleitores para facilitar a verdadeira batalha de um dos concorrentes: o grande objectivo do incumbente é decidir o escrutínio logo à primeira volta, pois de contrário o resultado será bem diferente - numa segunda volta, outro galo declamaria!

de facto, para a determinação dos resultados, a legislação eleitoral (quer para a AR, quer para o PR) equipara os votos brancos aos nulos: não valem – mesmo nada, o que aumenta as possibilidades dos ansiados 50% dos votos «expressos» na primeira volta

é que para efeito (a «causa eficiente», em Aristóteles) do apuramento dos votos, nas presidenciais, a Lei é muito simples e clara: ganha o mais votado, desde que tenha mais de metade dos votos validamente expressos

se não tiver mais de metade, vão os dois mais votados a novo sufrágio, quer dizer, à segunda volta!!

ou seja, o voto branco ou nulo é absolutamente ineficiente, tem um efeito zero no apuramento dos resultados - porém, o seu apelo é enganoso, porque favorece ainda mais o que já tem a natural vantagem de estar no lugar

isto quer dizer que, se numa segunda volta, todos os eleitores menos um votassem branco ou nulo, o eleitor que votasse válido num dos candidatos é que escolheria, sozinho, o novo Presidente - todos os seguidores do apelo ao voto branco ou nulo teriam sido eficientemente ludibriados!!

afinal, em vez de branquear ou grafitar o voto, quem não gosta de nenhum dos candidatos podia e devia apresentar-se como candidato, desde que tenha mais de 35 anos de idade

agora com este cardápio, a maneira de ser eficiente é, então, votar mesmo num dos candidatos

mas além de votar de forma eficiente, o que é um direito e um dever cívico, podemos também aspirar a um pouco mais e votar com satisfação, esperança e alegria

mesmo para propensos grafitadores, há maneira melhor de alegrar o voto

é o voto alegre!!!

;_)))



registo de interesses: o Ditos apoia Mafalda e Manuel Alegre a Belém

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2011-01-18

ditosa industriosa



















com vista para a indústria e vária passarada mecânica, a janeiral ditosa repousa de travessias cada vez mais caras...


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2011-01-17

bola


assuntos do dia, bem sabemos, são a alegre campanha das nossas presidenciais, o drama das cheias no Brasil e na Austrália, o macabro folhetim português em Times Squares, a revolução popular na Tunísia, um sem fim de tragédias mundo fora, nuns casos por causa dos homens, noutros seja pelo que for e de tudo ou quase tudo estamos bem servidos de informação, porventura para além do razoável e até do humanamente suportável...

e aqui entra a bola: apesar de tudo, há refúgios de sonho que nos permitem o intervalo e o fôlego para (re)encarar a difícil realidade, seja por via da arte, própria, alheia ou em conjugação, seja por via de outras sublimações, seja ainda e também pelo desporto, em profusão irracional de idolatrias e cores!

por cá, o início da segunda volta do campeonato nacional de futebol, digo, Liga (seguido de conveniente marca designativa e comercial) reencontra o FCPorto à frente e pujante, também aproveitando exemplarmente as benesses e ingenuidades alheias; o SLBenfica na peugada, apesar de vitória maculada por golo duplamente irregular e involuntário; e o SportingCP em desaire caseiro e institucional, à procura de rumo e novo presidente mas sobretudo de golos e vitórias

mas como bem cantava José Jorge Letria, o dragão, a águia e o leão, jogam sempre na primeira divisão!!

e, por falar nisso, o CFBelenenses pode bem ter começado a reviravolta milagrosa, de ânimo, poder de concretização e de lugar na respectiva classificação!!!



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2011-01-15

Janeiro Régio



Soneto quase inédito

Surge Janeiro frio e pardacento,

Descem da serra os lobos ao povoado;

Assentam-se os fantoches em São Bento

E o Decreto da fome é publicado.


Edita-se a novela do Orçamento;

Cresce a miséria ao povo amordaçado;

Mas os biltres do novo parlamento

Usufruem seis contos de ordenado.


E enquanto à fome o povo se estiola,

Certo santo pupilo de Loyola,

Mistura de judeu e de vilão,


Também faz o pequeno "sacrifício"

De trinta contos - só! - por seu ofício

Receber, a bem dele... e da nação.


JOSÉ RÉGIO Soneto escrito em 1969, no dia de uma reunião

de antigos alunos.



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2011-01-12

em português


bem nos entendemos, valente!


jametinhasdito, Mourinho, é uma atitude bem de português !!

mas reconheça-se, é caso especial, após reivindicação de estatuto de "special one" e atingido por mérito o de "number one", é obra de bem dirigir-se ao mundo em português, tanto mais que se trata de um profissional que se apressa a dominar a língua do País em que trabalha, o que aliás é também muito português!!!




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2011-01-10

vez primeira


oficialmente iniciada a campanha eleitoral das presidenciais em Portugal, há, sem dúvida, uma sensação generalizada de inevitabilidade de continuação do presidente em funções

com a consequente inércia... muitos eleitores poderão considerar que nem vale a pena participar, tudo está já decidido

e potencia-se tal statu quo também por haver alguma tendência para, por seguidismo ou egoísmo, votar no presumível vencedor, que assim aglutina duplamente vantagens circunstanciais mais do que por mérito próprio

acresce a divisão, algo forçada - um dia se compreenderá porquê - no lado esquerdo do espectro eleitoral

a estatística tem peso, é certo, mas foi um primor ouvir Alegre dizer: «alguma vez será a primeira»!

importa acreditar que é possível vencer a inércia, o voto carneiro e divisão sinistra!!

porque numa segunda volta seria outra, a história!!!

;_)))


registo de interesses: tal como no processo eleitoral de há 5 anos, o Ditos não fará campanha mas apoia a candidatura de Manuel Alegre

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2011-01-03

Nova Partida


a 8 anos da celebração do V centenário da primeira circum-navegação, o empresário e velejador António Quina (sim, familiar dos medalhados olímpicos, Mário e José Quina) partiu hoje em viagem de preparação de uma nova e comemorativa volta ao Mundo por mares dantes navegados por lusas gentes, honrando a ciência e o labor do projecto pioneiro de Fernão de Magalhães !

é um jametinhasdito contra a inércia e contra o esquecimento, pela via factual, por mão própria e pondo os pés ao caminho, para o fazer, neste caso calculando azimutes, arregaçando as mangas e içando as velas!!

bons ventos ajudem a intrépida tripulação e quem a apoiar, até ao porto de ... partida e uma vez cumprido com êxito o périplo Atlântico hoje iniciado em Oeiras!!!

[...]
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português. [...]

in Mensagem, Fernando Pessoa, o mesmo poema em que o rosto da Europa fita o Ocidente e o futuro ;_)))



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2010-12-25

ditosas em terra



















de peito feito ao vento agreste mas em tempo de cerrar fileiras, em reflexão, em redobrada atenção

e onde estão as ditosas?




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Natal.F




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Natal.E

























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Natal.D



Igreja de Santo Estêvão

Na igreja de Santo Estêvão
Junto ao cruzeiro do adro
Houve em tempos guitarradas
Não há pincéis que descrevam
Aquele soberbo quadro
Dessas noites bem passadas

Mal que batiam trindades
Reunia a fadistagem
No adro da santa igreja
Fadistas, quantas saudades
Da velha camaradagem
Que já não há quem a veja

Santo Estêvão, padroeiro
Desse recanto de Alfama
Faz um milagre sagrado
Que voltem ao teu cruzeiro
Esses fadistas de fama
Que sabem cantar o fado


Fernando Maurício




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Natal.C


O sol é grande, caem co’a calma as aves

do tempo em tal sazão, que soe ser fria;

esta água que d’alto cai acordar-me-ia

do sono não, mas de cuidados graves.


Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,

Qual é tal coração qu’em vós confia?

Passam os tempos, vai dia trás dia,

Incertos muito mais que ao vento as naves.


Eu vira já aqui sombras, vira flores,

vi tantas águas, vi tanta verdura,

as aves todas cantavam d’amores.


Tudo isso é seco e mudo; e de mestura,

também mudando-me eu fiz doutras cores:

e tudo o mais renova, isto é sem cura!


Sá de Miranda





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Natal.B




















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Natal.A





















um encantador Pai Natal preencheu ontem o ecrã da secção de análise de imprensa do telejornal matinal da SIC

na realidade, trata-se do delegado para um grande centro comercial do verdadeiro Pai Natal, esse em verdadeiro serviço no seu verdadeiro local de trabalho


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