No DN de ontem, Vasco Graça Moura usa a sua habitual coluna para dar a sua
opinião sobre o próximo referendo.
Jametinhadito que nem não nem sim, antes pelo contrário, fica tudo como está!
Em resumo, branco mais branco não há!!
No último Verão, a Visão editou um conjunto de pequenos contos, todos de preço acessível, leitura fácil e bom efeito, em qualquer época do ano.
O de Vasco Graça Moura ("Duas mulheres em Novembro", salvo erro) versava justamente o aborto. Narrava o reencontro de duas portuguesas, de classes sociais marcadamente diferentes, reunidas pelos acasos da vida numa clínica para efeito de ... pois claro, um aborto!
Azares, opções, percursos, expectativas, direitos, obrigações, consciências, (pre)juízo social, estima pessoal, mais a classe social, enfim, um caldo de razões e emoções, em diálogos escassos, económicos, entrecortados, calados, contidos, vingados, ressentidos, ressaltados e sobretudo uma boa dose de introspecção, reflexões na primeira pessoa do singular, à vez, sobrepostas, contrapostas, uma história bem escrita, algo cinematográfica mas no interior da mente de cada uma daquelas duas mulheres, tão diferentes, tão iguais, a mesma afinal.
Os contextos: entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, datas de virar de página e de páginas por virar, também em diálogos calados pelo escritor, também contrapostos e sobrepostos, como os mundos sonhados, rompidos e interrompidos em momentos cruciais da nossa história de há trinta e poucos anos, se bem que ainda assim carregada dos pesos do passado e do então futuro, com que ao fim e ao cabo ainda hoje nos debatemos - em véspera de mais um referendo, andamos à volta das mesmas razões de sempre, uma mais jurídicas que outras, muitas de fé, muitas de contrafé, muitas de má fé.
Fiquei, ao ler o dito conto, com a impressão de que naquela historieta se podiam ler várias oportunidades perdidas, de vidas individuais, de classes sociais, do país, da nação, e em especial da legislação sobre as condições em que tantas mulheres praticaram o aborto, durante muitas gerações, também as nossas gerações, certamente até às actuais gerações.
Os saltos revolucionários trouxeram a igualdade de direitos e a emancipação da mulher, na Constituição de 1976 e no Código Civil em 1977, o divórcio, o exercício do comércio, o voto, etc., mas não o aborto...
Nem tudo mudou, então...
Talvez a minha leitura tenha sido errada, abusiva, querida mais do que correctamente interpretada, afinal lida sem qualquer exegese, foi só a primeira impressão, era Verão, não havia campanha, os escritores podem ter razão antes de tempo, fora do tempo, o tempo todo - os leitores também !
Mas Vasco Graça Moura deu a volta à volta do assunto e voltou à mesma, para deixar tudo como está, cada vez lava mais branco...
observações são bem vindas