2006-07-13

o contador de gaivotas

(Donde sopra esta brisa assim e quente que me segreda aos ouvidos?)

Ofício difícil, este de vaguear pela praia.
Aceitei uma vaga azul,
a sul
do paralelo de Mú.
Faço-o com empenho,
mas não é fácil.
Sem horários,
o tempo é tecido nas marés,
pela dança do sol com a lua.
O recenseamento das gaivotas
é registado com rigor no quadro da areia da praia.
Mas isso tem os seus preceitos e não pode ser em qualquer sítio.
Tem que ser naquela zona onde o mar vem ler.
Desconheço o que acontece depois,
mas seguramente o mar guardará tudo na memória
em água e sal
para eterna conservação.
Tenho ainda outra missão
e dela só posso falar muito genericamente
por causa do segredo profissional.
Guardo pares de pegadas
deixadas ali muito paralelamente
na areia molhada de quando a maré se agacha.
A seguir o mar, na sua regularidade, recolhe-as e, depois de tratada a informação, permite a leitura aos interessados.
É por isso que os amantes procuram a beira-mar,
sobretudo naquela hora mágica que antecede o crepúsculo.
E quando dizem “amo-te” é porque se asseguraram
que isso está escrito lá ao fundo,
na horizontal do mar,
só para quem sabe ler na água.

Gregório Salvaterra, contador de gaivotas e poeta público

(transcrito de "Mar Algarvio", Maio 2006, CCDRAlgarve e Município de Portimão


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2006-07-05

intromissão




hoje as equipas de Portugal e França disputarão um lugar na final do campeonato mundial de futebol

ao certo, uma defrontará a Itália, já apurada, e a outra encontrará a Alemanha, candidata ao 3º lugar caseiro

se fosse a brincadeira "descubra o erro", a solução era facílima: Portugal raramente vai à fase final seja do que for, apesar de nem estarmos mal representados pelo futebol, francamente acima da média das nossas possibilidades num ror de modalidades desportivas

pior, bem acima da média de muitas modalidades económicas, políticas, educativas, culturais e de desenvolvimento social e humano em geral

talvez por isso e porque a massa humana é feita muito de emoções, os adeptos estão entusiasmados e muitos cidadãos tornaram-se adeptos durante a fase mais intensa do campeonato do mundo

e como se vê na imagem, a competição pode restringir-se ao terreno de jogo, ficando a rua para a expressão de desportivismo alegre e salutar, como é de boa vizinhança entre países com muitos lações fraternos

o desemprego, os azares da vida, o desalento, tudo pode esperar, adiando a má onda enquanto se aproveita a onda festiva

sim, porque haver uma onda de expectativa é já bom motivo de festa !

e por falar em festa, talvez o factor decisivo possa resultar de um alento especial com que os franceses não poderão contar - os industriais de ovos moles apoiam a selecção portuguesa, com a conta, peso e medida de uma receita doce de Aveiro, de onde também há boas notícias

oxalá esta receita supere a poção de Asterix, Obelix e Zidanix

assim os nossos Figolo, Ricardo Mãos de Aço e Cristiano Sem Pavor, provem a doce receita da vitória por que todos esperamos

já agora que nos intrometemos no campeonato dos grandes, era lindo trazer-lhes a taça para não serem sempre os mesmos a ganhar!

querem a taça ? jametinhasdito !!

a taça é nossa !!!


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PS - o Ditos cumpriu o segundo centenário, de aqui fica discreto sinal; mas diz o ditado que "ao ano andante, aos dois falante", será que é melhor estudar como é que se põe audio nisto ? aceitam-se dicas e obrigado, por tudo !

abortar a lei

o Tribunal de Aveiro reapreciou um processo em que eram acusados 17 arguidos, anteriormente absolvidos por falta de provas incriminatórias, uma vez que certos exames médicos acusatórios haviam sido considerados realizados sob irregularidade processual

com a atribuição, pela Relação de Coimbra, de valor probatório aos ditos exames, ginecológicos, o novo julgamento divergiu do primeiro e condenou 5 dos arguidos: o médico responsável pela clínica, a técnica de saúde e 3 das mulheres que abortaram

haverá certamente recursos por parte da defesa e muitos julgamentos no passado concluiram pela absolvição de mulheres que abortaram, tendo ainda havido um indulto presidencial no mandato de Jorge Sampaio

mas ficam a doer muitas perguntas: só as mulheres são condenadas ? estarão sozinhas no assunto ? protegem os seus maridos e companheiros ?

jametinhasdito!


já a intervenção pública da Ordem dos Médicos contém elementos positivos, questionando o papel atribuído à lei e às punições para resolver algo que pertence à esfera dos valores, apelando à reflexão da sociedade

quanto ao médico, se bem que talvez para as aparências, o corporativismo promete acrescentar mais uma punição - disciplinar - assim receitando a eliminação da coerência...

também estranhamente, a Ordem dos Médicos não se pronuncia sobre o problema de saúde pública que alegadamente subsiste em Portugal, sem que se conheça desmentido oficial

então há diagnóstico mas não há terapia ?

jametinhasdito!!



se houver consciência e bom senso, alguém ficará a remoer a abstenção ao referendo de 1998

mas mais ainda quem caíu na armadilha do referendo

e de alguma forma todos quantos se deixaram enredar na inércia desde pelo menos 1974 - subsiste na lei portuguesa a condenação discriminatória e vexatória da mulher por ser mulher, o que deveria pura e simplesmente ter acabado no 25 de Abril, deveria decorrer da Constituição e deveria impor-se por força dos conceitos irrenunciáveis da igualdade de direitos e oportunidades

enquanto os legisladores, parlamentares e governantes, forem maioritariamente homens, como manda o Cavaco, Portugal pode ganhar jogos de futebol mas permanecerá uma vergonha no campeonato da civilização


jametinhasdito!!!


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2006-06-25

meia noite e ponto





pela beleza e porque o exotismo espreita em todas as latitudes, o Ditos pediu emprestada a imagem do sol da meia noite à página do torneio de xadrez a decorrer em Tromso, Noruega

as partidas - muito díspares mas algumas engraçadas - podem ser facilmente seguidas

jametinhamdito que o sol da meia noite é pleno de atractivos !!!

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2006-06-22

popular


será Santa a Ditosa de Junho ?

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adivinha



parecia anúncio de vidente professor bruxo mestre espírita adivinho tarólogo esotérico caça-notas

mas não é!

embora a finalidade possa ter algo em comum, algo de espirituoso, algo de dispendioso

há-de ser coisa ou casa de venda de vinhos, seus congéneres e afins, inclusivamente em idiomas turísticos, que é como quem diz, para inglês ver

curiosamente, ali perto, há uma loja de conservas que é uma preciosidade e vende outras tais: jaquinsinhos de conserva, pois então; carapaus; escabeches variados; sardinhas em todas as mil e uma modalidades como as confecções de bacalhau; polvo; atuns diversos; qualidades de cavala; tudo emprateleirado; nem tudo à vista mas chega-se lá de banquinho; um pau de comerciante faz chegar a lata a mãos ágeis e destas para as mãos ávidas dos Clientes; improváveis como a diversidade enlatada...

à Rua da Madalena, à Sé, no sopé da colina do Castelo, a caminho da Mouraria ou de Alfama, da Cerca Moura, de São Vicente, de Santa Luzia, da Graça, ou para cá, da Baixa, Terreiro do Paço, Martim Moniz, Praça da Figueira, Rossio, Socorro, Santa Justa...



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2006-05-30

ocaso



é hora do pôr do sol

é hora de serenar

o ocaso sucede e sucede-se, há que aproveitar enquanto luz, aproveitar mesmo os seus últimos raios de energia e luz, combativamente se necessário ou se for o jeito de melhor aproveitar a vida, condignamente

no fio de azeite e no centro das estrelas

mas se a luz do sol é a flor da vida, pode também suceder o seu raio derradeiro iluminar-nos em serena doçura

ao ciclo natural sobrevem a dignidade e a serenidade

toda a hora é digna

em paz


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2006-05-28

votar no feminino

a 28 de Maio de 1911, foi a votos a eleição de deputados à Assembleia Constituinte

Carolina Beatriz Ângelo, viúva, médica, activista da causa feminista e dirigente associativa, deu corpo a intenção colectiva e inscrevera-se no recenseamento eleitoral, que lhe foi negado por ser o voto, como outros direitos políticos, então reservado a homens

reclamou para o Tribunal da Boa Hora e o processo foi apreciado, por assim ter calhado na escala de distribuição, pelo juiz João Baptista de Castro, por sinal pai da também dirigente feminista Ana de Castro Osório

a sentença julgou procedente a pretensão, reconhecendo à reclamante plena capacidade eleitoral, por saber ler e escrever, ser chefe de família e ser cidadão português

ler e escrever estava sumamente demonstrado pela licenciatura em medicina;
chefe de família decorria da situação e estado civil de viuvez; já quanto à condição de cidadão foi preciso recorrer a interpretação jurídica, a prodigiosa hermenêutica que pode usar de alguma livre criação na procura do sentido legal, desde que disponha de apoio suficiente na letra da lei – à data, muitos consideraram que o juiz forçou o espírito da lei

ou seja, a qualidade de cidadão português, definida pelo Código Civil sem distinguir mulheres de homens, era então bem mais que o considerado pelo legislador eleitoral de 1911 – na lei eleitoral, a expressão "cidadão" era referida apenas aos homens

mas a sentença, além de competente exegese jurídica, invocou também a “moderna justiça social” e os “princípios republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade”

uma vez recenseada, Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto

no momento, o presidente ainda perguntou à mesa se alguém se opunha... obviamente sob protesto da cidadã eleitora devidamente recenseada, por ser acto ilegítimo face à lei eleitoral e à sentença que validou o recenseamento e o direito de votar

e segundo afirmou, votou em políticos que aceitavam atribuir, ainda que com restrições, direitos políticos às mulheres: Teófilo Braga, Afonso Costa, Magalhães Lima

mas mesmo as organizações feministas – que lutavam pelos direitos das mulheres e das crianças! – só reclamavam o direito de voto para algumas mulheres, em função dos baixíssimos graus de instrução – a taxa de analfabetismo em Portugal era de 76% e de 90% nas mulheres – e de autonomia financeira das mulheres portuguesas de então, assim muito influenciáveis - pelo ... clero (!?!) devido à educação jesuítica - e dependentes - de quem seria ? a administração de bens era atribuída aos homens!

mesmo assim, o direito de voto das mulheres só veio a ser consagrado em 1931

Adelaide Cabete foi então a primeira mulher a votar no ultramar, em Angola – era também activista e dirigente feminina, viúva e médica

o diploma era fundamental, pois enquanto para os homens era requisito bastante saber ler e escrever, para as mulheres era necessário curso secundário ou superior

quanto a outros direitos políticos o caminho ainda seria mais árduo; mas já em 1911 Carolina Beatriz Ângelo defendia que certos cargos públicos deviam ser exercidos unicamente por mulheres – referia-se então às juntas paroquiais mas valeria a pena carrear este argumento para o debate e fundamentação teórica das quotas mínimas de um terço de participação feminina nas listas eleitorais para a Assembleia da República, recentemente consagrada sob o auspicioso baptismo de "lei da paridade"

a igualdade de direitos perante a lei só veio a ser consagrada depois do 25 de Abril de 1974

esta é talvez uma das boas razões para se recordar e referir esta data, de que se vai perdendo a noção e o sentido, sobretudo nas gerações mais jovens, para quem é difícil entender o porquê de tanta insistência nas comemorações, nos feitos de antes e depois ou na ideia de trajectória: o percurso e a história da luta por certos direitos, a sua aceitação pela comunidade, a sua consagração legal e, quando assim é, a sua efectivação na prática social, nas instituições e na mentalidade

a Constituição da República Portuguesa, de 1976, cujo preâmbulo proclama o propósito de construir um país mais livre, mais justo e mais fraterno, além de reconhecer a todos os cidadãos a mesma dignidade social e igualdade perante a lei (artigo 13º, princípio da igualdade) estabelece no artigo 49º o sufrágio universal, estipulado também como dever cívico: têm direito de sufrágio todos os cidadãos maiores de 18 anos

jametinhamdito que hoje, ao menos quanto à consagração legal do direito de voto de homens e mulheres, tudo é legal, igual e consensual !

na prática e quanto a outros direitos políticos e de participação pessoal e efectiva na vida e nos cargos públicos, não é assim tão simples

mas o primeiro voto feminino em Portugal entrou na urna, para eleger os deputados à Assembleia Constituinte, em 28 de Maio de 1911, faz hoje 95 anos ! !

e foi obra ! ! !


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2006-05-23

Norte



no alto da sua cruz, a Ditosa de Maio procura o Norte

quem não procura ?

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2006-05-21

Chinesices finas

Na edição de ontem da Única, Clara Ferreira Alves gasta em boa consciência a sua crónica a perorar contra a Zara, como é moda corrente politicamente correcta.

Vai dizendo que o produto é bom e barato mas... tão bom e tão barato que quem compra só pode saber muito bem que fica a dever a crianças asiáticas cuja força de trabalho é vilmente explorada pela marca.

A solução é optar por outras marcas, devidamente nomeadas, de entre as de fama de luxo internacional.

Também zurzindo contra a exploração de trabalhadores asiáticos, António Barreto repisa a sua boa consciência na edição de hoje do Público, a respeito da verdadeira praga que são as lojas de chineses em Portugal.

O problema surge da falta ou dificuldade de limpeza de flutes, de champanhe, e de cálices de Porto com assinatura de mediático autor.

Depois de ir aos melhores centros comerciais e mercearias finas, armazéns caros e vidreiros recomendados, a solução aparece mesmo à mão, numa loja chinesa perto de si, como há em tudo o que é beco, avenida ou rua.

Trata-se do indispensável escovilhão, ex-libris esquecido mas da maior utilidade para bem arquitectados serviços de louça.

Resta dizer que também ainda os há nas feiras, nas praças e na mais remediada imaginação de qualquer cabo de colher e esponja de lavar a loiça.

Mas voltando ao cerne da questão, os nossos cronistas jametinham dito que no mais finório pano cai a nódoa asiática.

E a plebe precisa de ler e saber, de quando em vez, que gente fina é outra coisa.

Chinesices à parte ... !


PS – sorry, links não há, que são reservados a assinantes e pagos...

PS2 – é claro que António Barreto escreve certeiro quanto ao preconceito acerca do comércio chinês estabelecido em Portugal: dados divulgados pela Câmara de Comércio Luso Chinesa demonstram que os tecidos, calçado e bugigangas que poderiam fazer perigar a produção nacional têm afinal peso bem reduzido nas contas da nossa balança comercial com a China, incluindo as regiões de Hong Kong e Macau, com margem para desenvolver mas muito baseadas na compra e venda de máquinas eléctricas e mecânicas...

PS3 – também a questão, relevante, do trabalho efectuado em condições injustas em todo o mundo, merece um comentário substantivo: sem dúvida que o caminho é lutar contra a exploração, em todas as comunidades como no nosso país; mas o boicote só por si nada resolve, sendo necessário pressionar os respectivos governos e empresários, bem como apoiar as organizações internacionais relevantes, no sentido da promoção do comércio justo e de melhores condições para os trabalhadores e para as sociedades em geral, lá como cá, na óptica da responsabilidade social e do desenvolvimento sustentável; glosando Almeida Garrett, é bom ter consciência e questionar quantos milhões de seres humanos é preciso manter pobres para proporcionar luxos ainda que tão subtilmente ostentados como os dos cronistas que hoje calharam na rifa do Ditos !!!


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2006-05-13

ladies only - bandeiras femininas

no próximo dia 20 de Maio, no Estádio Nacional, ao Jamor, em Oeiras, pretende-se fazer uma bandeira humana apenas com a participação de mulheres

portuguesas, como o estandarte verde e rubro, é bom de ver!

e será bom de ver, em muitos sentidos

por outro lado, dia 28 de Maio realiza-se a primeira edição da corrida "LISBOA A MULHER E A VIDA - 5KM EDP", iniciativa organizada pelo Maratona Clube de Portugal, com o apoio da Associação Portuguesa de Senologia, da Liga Portuguesa contra o Cancro e de diversas entidades

da Rocha do Conde de Óbidos, em Santos, à Torre de Belém, estes 5 quilómetros junto ao Tejo, em Lisboa, serão corridos apenas por mulheres

mais do que uma prova, este percurso ribeirinho, destina-se a conseguir receitas para compra de aparelhos de rastreio do cancro da mama

eventos reservados à participação de mulheres, são casos de verdadeira discriminação

embora não corresponda ao conceito de discriminação positiva de “tratamento mais favorável para reposição de equilíbrio perante uma situação de desigualdade injustificada”

mas o sentido continua a ser positivo: no caso da moldura feminina para dar forma humana à bandeira portuguesa, trata-se de apoiar a selecção nacional de futebol, envolvendo uma importante parcela da população, habitualmente menos incentivada a participar na modalidade

e sem dúvida que a modalidade, o desporto e a sociedade em geral podem beneficiar deste especial incentivo e alento, com vista a uma vivência mais humanizada, participada e diversificada

apelando ao convívio de todos os sectores da população e das famílias, contribui-se para este tipo de fenómenos de massas ser vivido sem reservas nem segregações mas em harmonia e festa

no caso da corrida das mulheres contra o cancro da mama, as finalidades compreendem um especial alerta e dinamização das mulheres, convocando-as a uma participação activa e pública, contribuindo de todo o modo, pela notoriedade suscitada, para a sensibilização de toda a sociedade

jametinhamdito que “discriminação positiva” não é tudo o que parece!!

apesar disso, estes casos de participação exclusiva de mulheres são especiais e positivos, oxalá bem concorridos e de resultados atingidos!!!



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2006-04-29

o cravo e a ferradura


cravos de quem quer bem


Decerto que os Amigos leitores do Ditos não se esqueceram do cravo, nem se esqueçam do megafone para as palavras de ordem proletárias do próximo Primeiro de Maio... eh eh !

Graçolas à parte, pode afirmar-se que o cravo é apenas uma flor (bem, uma palavra também é apenas uma palavra mas por vezes pode muito, pode ser um punhal ou talvez mesmo... causar uma revolução?) e em Abril há cravos, é a natureza a florir sem intenções!

Mas para as sociedades humanas até um simples cravo pode ganhar um significado especial. Por exemplo, em 25 de Abril de 1974, o povo que acompanhava in situ e in loco as operações militares na baixa lisboeta, onde exercem actividade muitas “vendedeiras” de flores, aproveitou o belo colorido das ditas então disponíveis, à venda – era Abril, nada mais que isso - para enfeitar a festa popular em que se transformou a revolução dos Capitães e outros oficiais. O gesto é bonito e contagiante. Lisboa - primeiro e todo o país depois – aderiu ao cravo. Por ser prático. Havia cravos. Primeiro, porque era a flor do dia. Depois, pela beleza estética, pelo crescente significado de associação à alegria da libertação e como símbolo da participação popular nos acontecimentos. Um dia fantástico. As pessoas vibraram. De emoção. Também de dúvida ou mesmo de medo. Além dos cravos, houve também corrida a latas de conserva e outros abastecimentos alimentares de reserva. Desconhecia-se como poderia evoluir a revolta, havendo no ar o pólen primaveril de ânimos exaltados, nunca se sabe. Acabou mesmo por ser decretado um conjunto de medidas contra o açambarcamento, para evitar a espiral da rotura. Mas a generalização dos cravos pode também ser vista da perspectiva de um sentimento inconsciente e colectivo relativamente ao desenrolar da revolução. O povo sábio não quis arcar com as culpas devastadoras de não ter lutado o suficiente pela sua própria libertação. Esse é um grande valor e símbolo do cravo. Com os cravos ao peito dos transeuntes e na boca das armas dos soldados, o povão apropriou-se do pronunciamento militar e fez sua a revolução. As consequências não são despiciendas. Os alemães e os italianos ainda hoje calam fundo a passividade ou mesmo o apoio às ignóbeis ditaduras respectivas. A má consciência. Como foi possível a adesão de tão significativa parcela da população, durante tantos anos, a tão carnificentas ditaduras? E como se convive com isso pelo devir? Em Portugal, em Abril de 74, foi diferente. A ditadura caiu às mãos do descontentamento de militares mas o povão estava lá, na rua, para a libertação de cada alma florir em cada peito, tingido a vermelho mas pela cor das pétalas de uma singela flor popular. A revolução era toda nossa, do povo. Assim já não era só contra as condições das comissões de serviço na guerra no ultramar. Com o povo na rua e em cima dos carros de combate, a apoiar os revoltosos, a revolução tinha que ser levada às últimas consequências, sem cedências nem retrocessos. Tinha mesmo que derrubar o regime. E, obviamente, demitir os seus donos. Com a omnipresença do povo, a liberdade e a democracia não ficaram manchadas de sangue nem de culpa de um país inteiro, foram adoptadas pelo próprio povo. É isso o que cravo simples leva na lapela dos políticos e manifestantes nas comemorações da libertação. Do fim e da queda da ditadura, da guerra colonial, da censura, da denúncia, do medo, dos filhos ilegítimos, das mulheres inferiores aos homens na letra da injusta lei, da iliteracia crónica e do analfabetismo persistente, do agudo isolamento do país, das vidas clandestinas, dos julgamentos sem defesa e sem justiça, das detenções sem culpa só pelo crime de pensar livremente, dos assassinatos e torturas de Estado, do atraso económico, humano e social que o fascismo, o corporativismo e o nacionalismo serôdio reservavam ao país. No cravo, estão os que se bateram, muitos em troca da própria vida ou dos seus entes queridos, mas também os que protestavam alto ou baixinho, os que calavam funda a raiva e a revolta, os que calavam consentidamente, os que calavam em aprovação, os que ajudaram à festa dos vampiros mas entenderam mudar de rumo com o virar de página do regime. É fazer a revolução sem disparar. Porque ao lado de cada soldado estava um civil, cem civis, mil civis. Ao lado de cada arma estava Portugal. Não era preciso disparar, se estávamos todos ali. Expiadas as culpas. Eis o cravo. A flor da ablação do tiro no momento da revolução. O cravo é a vontade do povo. A expressão popular. Não é exclusivo das elites nem dos militares. Nem de importação. O cravo não é mercearia fina. É a espontaneidade dos transeuntes. É a flor da época. Prosaica. E garrida. Que enfeita as águas furtadas, os poiais de pedra lioz e os varandins de ferro das fachadas de azulejo das ruas e vielas dos bairros populares. Numa cerimónia política solene, o cravo na lapela é levar o povo no coração, junto ao pulsar que a recordação emociona dentro do peito. O cravo é o peito aberto, genuíno, à vista, oferecido. E quem não tem o peito aberto, genuíno, à vista, não o pode oferecer. Eis porque às vezes falta o cravo. Lembram-se de alguém que nunca usou cravo ao peito? Querem ver que estão para aí a pensar nalgum professor de finanças... jametinhamdito!

ou no que dá a ferradura presidencial ...

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2006-04-20

Abril, sempre!


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a gaivota de Abril é já antiga e não está com um ar muito esplendoroso, pois não ?

tempos ...

2006-03-29

Al tartufo


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Semola di grano duro
Carota
Pomodoro
Spinaci
Barbabietola
Nero di seppia
Curcuma

São os sete sabores da multicolorida massa alimentícia que acompanha e alenta o referido tartufo.

Coisa pouca, o tartufo negro, a duzentos contos (1.000 euros) o quilo (Kg), se bem que muitíssimo mais acessível que o branco.

Esse sim uma preciosidade reservada a príncipes e outros gulosos endinheirados.

Por isso, jametinhamdito que é servido em distintos restaurantes italianos individual e pessoalmente aos mastigantes, directamente em cada prato a partir de farripas do dito cujo, retirado - ao momento e para o efeito - de expositor fechado a cadeado e, de imediato, lá voltado a guardar.

Mas voltemos à receita da plebe: fácil não é mas pode ser que amigalhaço cálido e viajado traga - de Itália, mesmo do aeroporto - uma emblagenzinha de orecchiette, as tais sette sapori, conforme ilustração acima.

E o indispensável ingrediente mágico.

Teremos então o necessário para uma sessão gastronómica inspirada em “orecchiete sette sapori al tartufi”, que algumas saladas e acepipes mais, bem como umas garrafinhas de vinho providenciais, completarão um excelente convívio prandial.

E podem sempre contar com quem prove e, certamente, comprove a aptidão, o afinco e a generosidade... espero o convite!

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2006-03-24

evocação do Cavaco, de Olímpio

"BENGUELA"
 
Numa das longas conversas,
Que tive com minha Avó
Perguntei-lhe se conhecia Benguela.
A minha Avó respondeu-me:
Conhecer eu não conheço,
Mas já ouvi falar dela.
Perguntei-lhe, se conseguia,
Num mapa localizar.
Ou por seus olhos cansados
Ou porque o mapa era velho.
Percorreu-o de alto a baixo
Não conseguiu encontrar.
Para eu não ficar triste,
Pediu-me lápis de cor,
E em seu estilo Naiff,
Sobre uma folha branca,
Com o castanho fez vários riscos, 
Com o vermelho fez bolinhas
Chamou-lhe Acácias em flor.
Dum lado e de outro de um morro,
Desenhou duas baías.
Que mais pareciam contorno,
De dois seios de mulata.
Com o azul pintou o mar, 
Com o amarelo fez um sol,
A uma chamou-lhe Azul.
A outra chamou-lhe Farta.
Três praias mais desenhou,
A uma chamou Caota...
E Caotinha à mais pequena.
Mais ao lado, para mim, 
A mais bonita...
Chamou-lhe praia Morena
Com o mesmo azul da praia,
Fez um rio.
A preto pintou um barco...
Com o amarelo bananas,
De resto tudo era verde...
Chamou-lhe rio Cavaco.
 
Segurou naquele desenho,
Como não sabia ao certo,
Em que lugar no mapa,
Deveria colocar!
Disse-me escuta meu neto.
Quando para o sul viajares
E chegares a uma cidade
Com praias maravilhosas,
Com acácias floridas,
E muitas mulheres bonitas,
Nas ruas ou à janela.
Pára...
Porque ou já é, ou estás perto
Dessa Cidade tão linda,
A que chamam de Benguela.
 
Olimpio C. Neves - Lisboa - 2/01/96

2006-03-23

taxa de piriquito

a gripe das aves é assunto sério, muito sério

diferentemente das vacas loucas, da brucelose das ovelhas, da peste suína africana ou das salmonelas dos ovos, que ciclicamente abalam o mercado alimentar e preocupam por muitas razões os respectivos utentes, numa base do circuito entre o produtor e o consumidor, esta crise terrível é global

de facto, além da transmissão da doença fatal aos seres humanos, as aves deslocam-se pelo mundo inteiro, migram entre hemisférios e cruzam todos os fusos horários do planeta, um pavor...

uma das medidas governamentais preconizadas para prevenir os efeitos da dita cuja gripe, jametinhamdito que é a exigência de declaração dos exemplares de cada proprietário, certamente para melhor conhecimento da situação por parte das autoridades e, talvez em muito grande porção, para reduzir a fraude na obtenção de subsídios, indemnizações de seguro e outras formas de reparação ou apoio oficial, à custa do erário público

em jeito de exorcismo, como compete ao humor - sendo que a brincar às vezes antecipa-se a realidade ou acerta-se na previsão do cenário menos provável - antevê-se que a par da declaração seja instituída uma pequena taxa, para cobertura da papelada, tramitação administrativa (funcionários carimbadores, emissão de segundas vias, etc, o costume!) e tratamento estatístico da informação, o que deve correr melhor com um programa informático mais o respectivo custo de consltoria, tudo a contratar em regime de adjudicação directa sem concurso público, dada a urgência do combate à nova peste!!

ou seja, se o canário não estiver declarado é melhor que perca o pio ou seja discreto no dia da visita do fiscal, senão além da taxa vai alcavala de multa, custas processuais e ... penas suspensas, esvoaçantes ou cominatórias

ah! e cuidadinho com as piriquitas migratórias que se abeirem da gaiola ou da casota do gato, outra espécie potencial vítima da doença das aves loucas, pois ainda há exemplares, mesmo domésticos, que às vezes gostam de pentear os bigodes com penugens, penas e outras cenas menos amenas, jametinhasdito, ó gato!!!





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2006-03-19

ensaio





a Ditosa de Março é da Mulher, da Poesia, da Água e ... do Teatro!

também conta ?



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2006-03-18

Juventude !

estafado está o brocardo: se o mal é juventude, passa com o tempo!

ainda assim, continua a ouvir-se a acobardada atoarda: veja bem, nada contra si, o problema é da sua juventude...

sim, sim, é caso para dizer: jámetinhasdito!

nem sempre se pode dizê-lo em voz alta, piedosamente...

em temos idos, cortavam-se as pernas a quem tentava estudar, aperfeiçoar-se e contribuir para o aperfeiçoamento da sociedade, apesar de a pouco e pouco haver leis instituindo alguma protecção formal ao progresso individual, à formação, ao estímulo à habilitação académica e profissional

hoje parece vencida a luta, adquirido que está em qualquer discurso político ou empresarial, exaltando a imprescindibilidade da aposta no conhecimento, na formação contínua, na qualificação das pessoas como via indispensável à semente de uma sociedade melhor, mais digna, mais humanizada e mais feliz

é assim, na retórica política nacional (assim se elegem governos e presidentes, sendo que quase todos os candidatos afloram ou reclamam o tema como central nos seus programas) e nas modernas teorias de gestão, nos manuais de conduta e de organização, nos manifestos de mudança, nos curriculos académicos, há mesmo pos-graduações e MBAs da coisa

no entanto a prática tem um longo caminho a percorrer

alguns jovens, mesmo que já amadurecidos pela vida, que acelera as idades, não tiveram direito ao cartão jovem, ainda não o havia... e correm o risco de já não ter direito à reforma quando chegar a vez, por então já não existir sustentabilidade que continue a assegurá-la

esta geração está no limbo, fase intermédia, está a chegar ao poder, aos cargos de responsabilidade, tendo carregado parceiros às costas, jovens uns, menos jovens outros, jogando por vezes apenas com metade da equipa, com o sentido do dever cumprido, com a adolescência condensada pelos intensos anos do 25 de Abril, com uma participação esforçada na vida das empresas, das profissões liberais, na vida cívica, na dinamização cultural

é a geração dos trabalhadores estudantes, que forçaram a vida a pulso, no tempo anterior aos subsídios, do voluntarismo abnegado, sacrificando a esfera pessoal e familiar de uma fase importante da vida, pagando do próprio bolso os respectivos estudos, pagando o preço que a injustiça comparativa lhes impôs nas empresas, nos partidos, no acesso a lugares, era o tempo dos concursos públicos na aceçpção autêntica da expressão, com prestação de provas públicas

é a geração que permitiu a recuperação de parte do atraso a que as gerações mais velhas antecedentes tentaram e em grande medida conseguiram condenar Portugal

é a geração que qualificou Portugal para o desígnio europeu, para o desígnio universalista que a pátria da língua portuguesa tem por destino, em paz e harmonia com os povos que ajudou a conscencializar e a reivindicar o seu lugar no mundo, a começar pelo seu próprio lugar

é a geração que pouco fez por si e que aceitou o risco do altruísmo, nada podendo agora reclamar, no mundo onde tantos outros reclamam sem olhar a méritos alheios, sem capacidade de reconhecimento do novo tempo que já chegou, do futuro que é já presente porque a tal geração intermédia a construiu no passado recente

e só há uma rota possível: continuar a acreditar, a contribuir e labutar no mesmo sentido de combater a adversidade, do espírito anquilosado e autoritário que subsiste na herança genética das ditas gerações antecedentes, que nunca aceitaram senão cinicamente o advento dos novos ventos que o 25 de Abril ofereceu ao tempo, a todas as gerações, a Portugal em geral

há pois percurso a cumprir

só resta persistir



observacoes sao bem vindas

2006-03-04

provável

em chamada à primeira página da edição de 3 de Março, o Diário Económico, jornal espanhol publicado em Portugal, oferece mais uma inovação ao nosso jornalismo, esgotava que estava a novidade da técnica de sucessivos desmentidos semanais com que o Expresso impôs o grande estilo que o caracteriza

de facto, com o título em parangonas “Granadeiro provável CEO e chairman da PT”, o DE importa para as páginas económicas o tradicional método meteorológico da incerteza cautelar, científica e probabilística

a probabilidade de certa personalidade vir a exercer um ou outro cargo, ou ambos, em determinada empresa, foi decerto confirmada segundo os critérios de rigor exigíveis aos jornalistas e responsáveis editoriais

em vez de notícias, o DE jametinhadito hipóteses de notícias

mas a novidade é relativa, tal como o paralelismo com a meteorologia, há muito que a imprensa económica nos habituou a extensas e cuidadas explicações de como e porque falharam as suas próprias previsões, tal como quando nos dizem que não choveu mas também podia ter chovido e como é que tudo não aconteceu

será o meteoroeconojornalismo ?

jametinhasdito !



observacoes sao bem vindas