2006-03-23

taxa de piriquito

a gripe das aves é assunto sério, muito sério

diferentemente das vacas loucas, da brucelose das ovelhas, da peste suína africana ou das salmonelas dos ovos, que ciclicamente abalam o mercado alimentar e preocupam por muitas razões os respectivos utentes, numa base do circuito entre o produtor e o consumidor, esta crise terrível é global

de facto, além da transmissão da doença fatal aos seres humanos, as aves deslocam-se pelo mundo inteiro, migram entre hemisférios e cruzam todos os fusos horários do planeta, um pavor...

uma das medidas governamentais preconizadas para prevenir os efeitos da dita cuja gripe, jametinhamdito que é a exigência de declaração dos exemplares de cada proprietário, certamente para melhor conhecimento da situação por parte das autoridades e, talvez em muito grande porção, para reduzir a fraude na obtenção de subsídios, indemnizações de seguro e outras formas de reparação ou apoio oficial, à custa do erário público

em jeito de exorcismo, como compete ao humor - sendo que a brincar às vezes antecipa-se a realidade ou acerta-se na previsão do cenário menos provável - antevê-se que a par da declaração seja instituída uma pequena taxa, para cobertura da papelada, tramitação administrativa (funcionários carimbadores, emissão de segundas vias, etc, o costume!) e tratamento estatístico da informação, o que deve correr melhor com um programa informático mais o respectivo custo de consltoria, tudo a contratar em regime de adjudicação directa sem concurso público, dada a urgência do combate à nova peste!!

ou seja, se o canário não estiver declarado é melhor que perca o pio ou seja discreto no dia da visita do fiscal, senão além da taxa vai alcavala de multa, custas processuais e ... penas suspensas, esvoaçantes ou cominatórias

ah! e cuidadinho com as piriquitas migratórias que se abeirem da gaiola ou da casota do gato, outra espécie potencial vítima da doença das aves loucas, pois ainda há exemplares, mesmo domésticos, que às vezes gostam de pentear os bigodes com penugens, penas e outras cenas menos amenas, jametinhasdito, ó gato!!!





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2006-03-19

ensaio





a Ditosa de Março é da Mulher, da Poesia, da Água e ... do Teatro!

também conta ?



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2006-03-18

Juventude !

estafado está o brocardo: se o mal é juventude, passa com o tempo!

ainda assim, continua a ouvir-se a acobardada atoarda: veja bem, nada contra si, o problema é da sua juventude...

sim, sim, é caso para dizer: jámetinhasdito!

nem sempre se pode dizê-lo em voz alta, piedosamente...

em temos idos, cortavam-se as pernas a quem tentava estudar, aperfeiçoar-se e contribuir para o aperfeiçoamento da sociedade, apesar de a pouco e pouco haver leis instituindo alguma protecção formal ao progresso individual, à formação, ao estímulo à habilitação académica e profissional

hoje parece vencida a luta, adquirido que está em qualquer discurso político ou empresarial, exaltando a imprescindibilidade da aposta no conhecimento, na formação contínua, na qualificação das pessoas como via indispensável à semente de uma sociedade melhor, mais digna, mais humanizada e mais feliz

é assim, na retórica política nacional (assim se elegem governos e presidentes, sendo que quase todos os candidatos afloram ou reclamam o tema como central nos seus programas) e nas modernas teorias de gestão, nos manuais de conduta e de organização, nos manifestos de mudança, nos curriculos académicos, há mesmo pos-graduações e MBAs da coisa

no entanto a prática tem um longo caminho a percorrer

alguns jovens, mesmo que já amadurecidos pela vida, que acelera as idades, não tiveram direito ao cartão jovem, ainda não o havia... e correm o risco de já não ter direito à reforma quando chegar a vez, por então já não existir sustentabilidade que continue a assegurá-la

esta geração está no limbo, fase intermédia, está a chegar ao poder, aos cargos de responsabilidade, tendo carregado parceiros às costas, jovens uns, menos jovens outros, jogando por vezes apenas com metade da equipa, com o sentido do dever cumprido, com a adolescência condensada pelos intensos anos do 25 de Abril, com uma participação esforçada na vida das empresas, das profissões liberais, na vida cívica, na dinamização cultural

é a geração dos trabalhadores estudantes, que forçaram a vida a pulso, no tempo anterior aos subsídios, do voluntarismo abnegado, sacrificando a esfera pessoal e familiar de uma fase importante da vida, pagando do próprio bolso os respectivos estudos, pagando o preço que a injustiça comparativa lhes impôs nas empresas, nos partidos, no acesso a lugares, era o tempo dos concursos públicos na aceçpção autêntica da expressão, com prestação de provas públicas

é a geração que permitiu a recuperação de parte do atraso a que as gerações mais velhas antecedentes tentaram e em grande medida conseguiram condenar Portugal

é a geração que qualificou Portugal para o desígnio europeu, para o desígnio universalista que a pátria da língua portuguesa tem por destino, em paz e harmonia com os povos que ajudou a conscencializar e a reivindicar o seu lugar no mundo, a começar pelo seu próprio lugar

é a geração que pouco fez por si e que aceitou o risco do altruísmo, nada podendo agora reclamar, no mundo onde tantos outros reclamam sem olhar a méritos alheios, sem capacidade de reconhecimento do novo tempo que já chegou, do futuro que é já presente porque a tal geração intermédia a construiu no passado recente

e só há uma rota possível: continuar a acreditar, a contribuir e labutar no mesmo sentido de combater a adversidade, do espírito anquilosado e autoritário que subsiste na herança genética das ditas gerações antecedentes, que nunca aceitaram senão cinicamente o advento dos novos ventos que o 25 de Abril ofereceu ao tempo, a todas as gerações, a Portugal em geral

há pois percurso a cumprir

só resta persistir



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2006-03-04

provável

em chamada à primeira página da edição de 3 de Março, o Diário Económico, jornal espanhol publicado em Portugal, oferece mais uma inovação ao nosso jornalismo, esgotava que estava a novidade da técnica de sucessivos desmentidos semanais com que o Expresso impôs o grande estilo que o caracteriza

de facto, com o título em parangonas “Granadeiro provável CEO e chairman da PT”, o DE importa para as páginas económicas o tradicional método meteorológico da incerteza cautelar, científica e probabilística

a probabilidade de certa personalidade vir a exercer um ou outro cargo, ou ambos, em determinada empresa, foi decerto confirmada segundo os critérios de rigor exigíveis aos jornalistas e responsáveis editoriais

em vez de notícias, o DE jametinhadito hipóteses de notícias

mas a novidade é relativa, tal como o paralelismo com a meteorologia, há muito que a imprensa económica nos habituou a extensas e cuidadas explicações de como e porque falharam as suas próprias previsões, tal como quando nos dizem que não choveu mas também podia ter chovido e como é que tudo não aconteceu

será o meteoroeconojornalismo ?

jametinhasdito !



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2006-02-23

Talasnico



quem for ao Talasnal, que prove o verdadeiro bolico !

segundo jametinhadito a Antena 1, no Portugal em Directo (diariamentedas 13h às 14h, salvo erro) há uma aldeia na Serra da Lousã onde interessadas doceiras olharam em volta e, deslumbradas com a abundância e autenticidade dos frutos dos castanheiros e das amendoeiras, decidiram juntar-lhe o mel feito do que as abelhas por lá manjam e desataram a experimentar até encontrar um doce endógeno, regional e aldeão

a tais ingredientes junta-se o segredo das proporções, consideradas justas por sufrágio popular de quantos aceitaram ser cobaias das sucessivas versões da preparanda guloseima, receita assim simultaneamente conventual e democrática

mas há uma última prova a realizar, que é a de lá chegar, serranias acima, a poder de pernas, fôlego e gula bastante, com a ajuda de fascinantes paisagens, silêncios lisongeiros e doses generosas de bom ar, tudo para não sofrer um fanico ao alcançar o Talasnico !

ah!... esquecia-me de ovos, açucar e q.b., os sempiternos ingredientes da doçaria universal

vamos lá provar ?



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2006-02-17

5 minutos

pode lá ser ?

já foi na Rádio Renascença, na Rádio Comercial e, há um ror de anos, na RDP

o "5 minutos de Jazz" faz 40 anos !

é o poder de síntese de José Duarte !!

e o concerto comemorativo, jametinhamdito, é terça-feira próxima, 21 de Fevereiro, no Teatro São Luiz

também se canta o fado em "5 minutos", é certo

mas aqui pode dizer-se:

- Jazz begins at fourtys !!!



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2006-02-15

voando sobre um ninho

de cucos, na Ilha da Madeira ...

haverá em Portugal casos de demência xenófoba ?

jametinhamdito que há !!!

é o exemplo da torpe acusação aprovada na Região Autónoma da Madeira pela maioria partidária no poder contra João Cardoso Gouveia, um deputado regional que deu voz parlamentar a uma realidade calafetada por décadas de autocracia que se refugia nos andaimes formais da democracia para escapar ao controlo substancial que o Estado de Direito pressupõe e para faltar ao respeito devido às minorias e às vozes contrárias


chegados à Madeira, quem é afinal portador da demência?

quem se perpetua no poder… a fazer lembrar outros voos sobre um ninho de cucos?


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2006-02-05

fantástic

na TVCabo tem havido assinalável dinamismo: vários telefonemas nas últimas semanas, querem falar com fulano de tal, que ligam mais tarde, perguntando qual é a melhor altura para voltarem a telefonar

até que há uma vez que se atende, interrompendo o jantar ...

já se tentou a habilidade de pedir o número de telefone pessoal de casa de um destes profissionais das vendas por telefone à hora de jantar, mas com a ingenuidade de adiantar que era para lhe telefonar à hora de jantar deles e ... claro, o número deles nicles, jametinhasdito!

e desta vez o que era? para saber se já se tinha reparado em programas extraordinários do fantástic line ou coisada parecida

sim, de facto tem havido programas engraçados, de veleiros, um segundo canal de desporto, outro segundo canal de desporto radical, um também segundo canal de notícias de desporto, e mais isto e mais aquilo, filmes, moda, etc, até teve que se ler o manual de instalação para se desactivar certo canal inconveniente em sinal aberto

exacto, é isso, descobre o tele-técnico da TVCabo – e agora vem a boa nova: era a título experimental, passa a ser pago e com desconto fica pela módica quantia de mais um tanto por mês

assim se vence a crise, aumenta a produtividade e o crescimento económico – mas apenas do respectivo conglomerado empresarial, pois claro; e à custa de muitos alegres pagantes, também claro!

o método é o de sempre: a TVCabo começou há uns anos, mediante um preço de assinatura moderado ou pouco mais e com uma programação razoável, incluindo filmes, moda, futebol, documentários e cartoons

depois foi engordando o preço e emagrecendo a oferta, passando sucessivamente os temas mais apetecíveis para canais pagos à parte

e prossegue a estratégia, à custa de milhares de papalvos e da ausência de concorrência

mas paga-se pela TVCabo bem mais do que pela electricidade – e alguém ouviu falar de intervenção do regulador sectorial ? ou da Autoridade da Concorrência ? ou dos Governos ? ou dos partidos ? ou de comparação de preços face à média europeia ? ou face à estrutura de custos ? ou face ao investimento em infra-estruturas ou serviços úteis ao país ?

nada !

nada vezes nada !

jametinhamdito !!!

já aborrece a armadilha, gasta de vezeira e costumeira ...

vamos tentar por cobro ou pelo menos moderar isto ?

uns meses sem canais pagos à parte, para começar

interpelar-lhes a má fé

ameaçar o cancelamento

e alguma divulgAcção

vale ?



PS – na Visão de quinta-feira passada, Ricardo Araújo Pereira glosa (ia fazer o link mas ainda vão em meados de 2005 na versão em linha) o tema da campanha fantástica da TVCabo, seguindo embora outra pista e denunciando o mau funcionamento daquela empresa e a forma como abusa do monopólio para desrespeitar os Clientes

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2006-02-04

Baptista Bastos

bem entregue a Baptista Bastos o Prémio de Crónica João Carreira Bom/SLP 2005

como o jornalista João Carreira Bom, o jornalista Baptista Bastos, prestigia a língua portuguesa pela via da crónica vivaz, da palavra desassombrada e da lucidez crítica

no caso em apreço, à reconhecida excelência da escrita, soma-se a pertinência das observações, análises e interpelações com que o jornalista premiado brinda os leitores da "Caneta de Sete Léguas", às sextas-feiras no Jornal de Negócios, onde se afirma disposto, apesar de Sócrates e Cavaco, a continuar as suas tarefas de ameno cronista !

é de Homem !!

sendo Baptista Bastos e Carreira Bom cronistas eleitos do Ditos, o Prémio da Sociedade da Língua Portuguesa é um jametinhasdito em cheio !!!



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2006-02-03

Sousa Dias

Jametinhamdito que se vai tornando politicamente incorrecto mencionar os obsoletos acontecimentos e efeitos do 25 de Abril, por memória de 1974

Por isso, ó deixa cá assinalar a efeméride do 3 de Fevereiro, dos idos de 1927!

Nem mais, o dia de hoje – data do significativo movimento que opôs resistência a Gomes da Costa e à ditadura instaurada a 28 de Maio de 1926...

Em Janeiro de 1927 haviam já borbotado corajosos embora pontuais e prematuros actos de rebelião mas o pronunciamento que em 3 de Fevereiro de 1927 eclodiu no Porto foi uma, senão a única, revolta militar que verdadeiramente ameaçou a ditadura.

O movimento acabou por fracassar, como o provam as décadas seguintes de regime ditatorial com que o nosso Portugal foi ensombrado, precisamente até à revolução de 25 de Abril de 1974 instaurar a democracia.

As responsabilidades da rebelião de 3 de Fevereiro de 1927 foram assumidas pelo General Adalberto Gastão de Sousa Dias.

Personalidade heróica da República, Sousa Dias era reconhecido como homem de bem, deputado e civilista convicto.

Mas também como militar valoroso, titular de elevadas condecorações: em 1920 com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Avis, em 1923 com o grau de Comendador da Ordem Militar de Cristo e em 1924 com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada, entre outras.

Por feitos exemplares, como a oposição ao golpe militar de Sidónio Paes, ao “movimento das espadas” que em 1915 esteve na origem da primeira ditadura do republicanismo na qual governou Pimenta de Castro ou à “Monarquia do Norte”, de 1919, que ajudou a derrotar pondo termo à tentativa de restauração do regime monárquico em Portugal, tal como já tinha participado na revolta republicana do “31 de Janeiro”, em 1891.

As derrotas dos movimentos revolucionários criaram inúmeros exilados, tendo sido constituído um importante movimento cívico, a “Liga de Paris” ou “Liga de Defesa da República”, com papel activo na preparação de outras revoltas, infelizmente mal sucedidas. Também a via civil e política ficou longe de concretizar a mudança para a democracia, apesar das destemidas candidaturas de Norton de Matos, Quintão de Meireles e Humberto Delgado à Presidência da República.

O nosso General Sousa Dias liderou outras tentativas - como a “Revolta das Ilhas”, que comandou a partir da Madeira, onde lhe fora fixada residência - de derrube da ditadura instaurada em 28 de Maio de 1926, cuja resistência, aliás, liderou enquanto foi possível face à superioridade numérica e de meios do levantamento de 28 de Maio.

Foi aliás dos poucos militares a resistir então...

Como pena, decretada em “julgamento especial”, sofreu o degredo em São Tomé e em Cabo Verde, foram então criados campos de concentração em diversas colónias.

Veio a falecer no Mindelo, na Ilha de São Vicente, às mãos do regime ditatorial que combateu, fiel aos seus ideais democráticos e à sua estatura moral, vítima da sua coerência, dignidade e civilismo republicano.

Os seus restos mortais foram trazidos em segredo para a Metrópole, para a cidade da Guarda, onde antes se estabelecera com a sua Família.

A título póstumo, em 1977 foi reabilitado na sua carreira e na sua dignidade militar. E em 1980 foi condecorado com o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.

Bateu-se toda a vida contra a ditadura e pela democracia em Portugal e pagou com o preço da liberdade, dos maiores suplícios e, por fim, da própria vida – para quem acha que a vida de hoje é difícil... e que não vale a pena lembrar o passado...

Por mais politicamente incorrecto, certo é que se o 3 de Fevereiro de Sousa Dias tem vingado, talvez Portugal tivesse poupado 47 anos de pesadelo...

Sousa Dias nasceu em Chaves, em 1865, fez 140 anos no passado dia 31 de Dezembro.


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2006-02-01

flor de laranjeira

a Teresa e a Helena jámetinhamdito que meteram os papéis para se casarem uma com a outra segundo as instruções do advogado delas e da associação deles

e não é só para o que é que é... também é para dar na TV, nos jornais e por aí diante, blogosfera incluída, contribuindo o Ditos em justa medida das escassas possibilidades

tenta-se ainda chamar a atenção para o grave problema da Constituição da República que no temível afã de promover a igualdade, esquece-se de consagrar algumas desigualdades reivindicadas em prol (não confundir com prole) da discriminação positiva, isto é, do tratamento diferente devido a quem é diferente

e a Teresa e a Helena são diferentes, o que em certas concepções de democracia (aliás o pior dos sistemas políticos à excepção de todos os outros) pode levar à exigência de uma Constituição para cada cidadão, conquanto reivindique a sua diferença e entenda que merece sobrepor-se a tudo o mais

certo é que por mais que mudem a Constituição, factos são factos e há uma realidade constituída pela natureza há milhões de anos que permitiu a sobrevivência e a evolução da espécie

no "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, a procriação era assegurada artificalmente e certamente modificaram-se umas quantas leis para atingir tal perfeição civilizacional

admirável, pois, o novo mundo !

e nem sequer podemos dizer que não estamos avisados ...



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2006-01-31

nevoenta


algo sebastiânica e desfocada no frio de Janeiro, a Ditosa inaugural do ano 2006 é das mais fáceis, o que não significa seja fácil ou tenha vida fácil...




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2006-01-27

Mães




a 25 de Janeiro realizou-se a 25ª Marcha das Mães da Praça de Maio, jametinhamdito que era a última...

mesmo para quem acha que não há instinto maternal, remetendo o assunto para o plano cultural, é forçoso reconhecer que haverá no futuro todas as marchas, manifestações e choradeiras que o desespero, a tenacidade e o amor são capazes de induzir no coração, nas mãos e na voz das Mães do mundo inteiro sempre que haja perigo para os filhos do mundo inteiro

sempre foi assim e a Marcha das Mães de Maio viverá mais que Matusalém !

oxalá fosse mesmo a última ...



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2006-01-24

com fusão

com efeitos a partir de hoje, 23 de Janeiro de 2006, é extinta e criada a Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico Pedro Nunes, data da publicação da Portaria nº 79/2006, no ilustre e oficial Diário da República, 1ª Série-B

é também extinta a Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico Machado de Castro, com fusão na Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico Pedro Nunes, para onde passam a totalidade dos respectivos alunos e os professores que lá couberem

o Pedro Nunes, ex-Liceu Normal de Pedro Nunes, à Av. Álvares Cabral, em Lisboa, é uma escola com pergaminhos

honra seja também feita à ex-Escola Industrial Machado de Castro, que em tempos teve o seu percurso próprio privilegiando a orientação prática e para as tecnologias

oxalá o novo modelo vingue e seja útil à comunidade e à educação, justificado pela optimização da gestão pedagógica e dos recursos humanos, físicos e materiais (estranha classificação, a que distingue os recursos físicos dos materiais…respeitará à dicotomia instalações e equipamentos?) no âmbito das políticas de reordenamento da rede escolar para a qualidade educativa

fica por explicar a fundamentação da medida, para além da integração na mesma área pedagógica, embora se depreenda e compreenda que a evolução dos respectivos projectos educativos se harmonizou ou pode harmonizar

jametinhamdito que a optimização é sempre óptima, a harmonia também harmoniza e o casamento entre vizinhos pode bem estender-se a liceus contíguos, pesem embora as cotas diferenciadas na origem de bastante animação, muitos sustos e alguns danos quando voavam pedras por sobre os altos muros, com ou sem aviso, safa...

oxalá se cumpram os objectivos anunciados de desenvolvimento das boas práticas e dos bons projectos educativos




fonte: Portaria nº 79/2006 - Visa a fusão entre as Escolas Secundárias com 3º Ciclo do Ensino Básico Pedro Nunes e Machado de Castro.


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2006-01-23

à segunda

depois do domingo, a segunda...

depois da derrota de há 10 anos, Cavaco Silva foi eleito à segunda tentativa, descontando que jametinhadito "passo" na eleição intercalar do Presidente Jorge Sampaio

mas apesar da decisão à primeira volta desta eleição, o resultado eleitoral é complexo:

Sócrates venceu em toda a linha!

A sobreposição no momento da declaração de Manuel Alegre, esse sim, candidato nesta eleição, deixa no entanto transparecer algum amargo com a expressiva diferença para o candidato oficial, Mário Soares, também porque evidencia à saciedade o custo excessivo do trajecto propositado de apoio a Cavaco Silva, que tem lhe agradecer

Mas também está de parabéns e vai ser um bom Presidente, tem todas as condições para isso, apesar de ter ganho sem as favas contadas e as postas de pescada que por aí se pavoneavam... talvez por isso parecia consternado no discurso que leu no momento da confirmação do resultado...

Ao menos durante os próximos 10 anos não haverá que pensar no assunto, apesar das pressões naturais para o reforço dos poderes do (deste!) Presidente e de outras aspirações acalentadas desde Sá Carneiro para se completar a partir da última premissa o esquema "uma maioria, um governo, um Presidente" que a direita nunca conseguiu em democracia!!!

Oxalá nem isso impeça o sonho a quem ainda tem essa capacidade...



PS - esta eleição encerra um ciclo, acabam de vez o 25 de Abril, a invocação da liberdade e a reivindicação da solidariedade!

na próxima, previsivelmente daqui a três anos e meio, já restarão poucos personagens interessados em tal bandeira, que encheria de ridículo e exotismo quem a lembrasse, já gasta, esquecida e substituída pela competitividade, liberalização ou conceitos afins; de todo o modo mesmo nesta campanha já estava praticamente fora do discurso político não fora a proposta de contrato presidencial, a voz e os valores que auguraram o apoio de muitos cidadãos a Manuel Alegre!

valente bem haja para tais cidadãos, bem como para o entusiasmo e a fraternidade que ofereceram a uma candidatura especial que se revelou afectuosa, oportuna e livre!!!


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2006-01-22

domingo

Num domingo em que passaste na minha rua e os prédios se afastaram para que me raptasses por cima das árvores

Na límpida tarde orlada
por minhas pestanas imóveis
tua aparição abre uma estrada
de damasco por entre os automóveis.

Apareces e lgo adquires
em minha eclípica visual
a lassidão equinocial
que espalha a cor na minha íris.

Apareces como o começo
de qualquer coisa interminável
de tão importante é tão frágil
teu vulto que nem estremeço.

Apareces como se gentil-
mente viesses para apanhar um trevo
e o domingo almofada anil
cede à tendência do teu perfil
de ficares num baixo-relevo.


Natália Correia




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2006-01-21

Vasco Santos

há dias o Ditos referenciou o novo Diário de Notícias e o esforço de mudança evidenciado no novo formato e no novo estilo

na economia de um post de blog, digo de um apontamento, foram omitidos aspectos vários, de importância vária e vário grau de urgência, admitindo-se que eventualmente, na passada de futuras leituras, outras referências fossem oportunas... ou esquecidas na espuma dos dias...

porém, um dos aspectos em que se reparou foi a transferência do tradicional problema e breve crónica de xadrez para lugar mais apropriado, arejado e organizado, fora dos anúncios classificados onde estava escondido (e por vezes ia fora... junto com a água do banho...) e passando arrumadamente para junto ao lazer, à direita do bridge e das palavras cruzadas, na página da meteorologia e, de aleatoriedade afim, dos inúmeros números de diversa sorte de totolotos, entre a programação das televisões e a dos teatros, exposições e farmácias

e ao arrependimento da omissão pesava a falta de homenagem a Vasco Santos, xadrezista, jornalista e jornalista-xadrezista que durante anos nos deliciou, divertiu e instruiu com a sua crónica magnífica de xadrez, com a crítica, a notícia, a memória, a lição, a pesquisa, a inventiva, a imaginação, a diversão, incentivo e o desafio desportivo e intelectual de que só é capaz um grande e verdadeiro Mestre

porque já desde há muito, desde a sua substituição enquanto cronista de xadrez do DN, impunha-se propor ao jornal a útil e justa edição de uma selecção das suas crónicas e problemas de xadrez

poucos dias corridos e antes de voltar ao tema, o próprio DN deu conta do falecimento do Mestre Vasco Santos, amigo de sempre e de todos, pai extremoso, pedagogo incansável, generoso e disponível, bom organizador e dinamizador de torneios e iniciativas, campeão precoce e veterano, ex-jornalista, ex-seccionista de xadrez do Benfica onde muitos jovens e não só aprenderam a jogar e a estudar xadrez mas também a conviver e a competir, a entreter-se e a progredir, a treinar e a disputar, a descobrir e a evoluir muito para além das regras, da arte e do jogo do xadrez, a crescer para a própria vida

o actual cronista de xadrez do DN, António Pereira dos Santos, também de uma Família de Mestres xadrezistas, dedicou-lhe sentida e justa homenagem na primeira oportunidade e na sua muito interessante crónica de xadrez

talvez seja a hora de passar à prática a sugestão de edição de um livro de crónicas de homenagem a Vasco Santos, retribuindo condignamente o quanto Vasco Santos honrou o Diário de Notícias



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2006-01-19

Preâmbulo

a Constituição da República Portuguesa tem muitos artigos e disposições, conferindo direitos, atribuindo deveres, estabelecendo normas organizatórias, impondo preceitos programáticos, estipulando princípios fundamentais, regulando procedimentos, disciplinando relacionamentos, prevendo regras gerais, especiais e excepcionais, instituindo órgãos de soberania e o modo de designação dos respectivos titulares, estatuindo a irrenunciável soberania do povo

e tem um Preâmbulo

a redacção dos artigos tem sido alterada, aqui e ali, umas vezes quase cirurgicamente para curar sem ferir, outras mais extensa ou sofregamente, chegando a descaracterizar algo do conteúdo inicial, boas vezes modernizando-a em adequada actualização

mas o Preâmbulo mantém-se o original

certamente escrito por poetas, o Preâmbulo da Constituição da República Portuguesa jametinhadito:

...

"A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno."

Manuel Alegre e Sophia de Melo Breyner sabiam o que estavam a escrever

bem hajam por nos apontarem o caminho

oxalá o saibamos reconhecer e percorrer aproveitando a sua claridade



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Alfarrobeira?

Num artigo no Público, Eduardo Lourenço avalia o “tempo de Soares” face ao mundo actualmente bem diferente do que constituiu o labor político da vida de Mário Soares.

E refere-se angustiado à divisão da esquerda na actual campanha para a eleição presidencial, comparando os seus possíveis efeitos aos da trágica e tristemente célebre Batalha de Alfarrobeira.

Mas não conta com o impossível que o realismo dos poetas e a aspiração de muitos cidadãos exige: a escolha do Presidente da República pode ser à segunda volta!

Nesse caso, como se espera que muito boa gente espere, a esquerda só poderá unir-se e reforçar-se; assim cairá a hipótese inteligente de Eduardo Lourenço, tributária de grande apreço e interpretável legitimamente como expressão de desencanto e inevitabilidade, perda e lamento, desespero na busca da dignidade que os apoiantes de Mário Soares bem merecem e o próprio bem carece no seu estertor contra si próprio e contra o facto inexorável de já não haver o tempo de Mário Soares.

E não é uma questão de idade, pelo contrário, aparenta bem, demonstra vitalidade, fôlego e persistência, tem uma vida dedicada ao combate político e não parece esmorecer na tenacidade; é mesmo o tempo, bem como a realidade e as circunstâncias, que lhe fogem e de que ele, porventura sem o perceber, também foge e se afasta, serôdio, ao agarrar-se ao lado mais sinistro, interesseiro e caciqueiro de uma máquina partidária a que já não pertence, que já não lhe pertence e que não lhe pagará favores como ele bem reclama à boca do cofre eleitoral.

E tem toda a responsabilidade nisso, a vários títulos: foi governante e presidente, teve as mais altas responsabilidades do Estado e do PS, sem ter contribuído como devia para a desejável e necessária renovação, de ideias, de pessoas e de métodos; as ideias recusam-se a comparecer - nem o PS consegue descortinar as razões que a razão desconhece para o apoiar; os métodos são os mesmos da perseguição e marginalização dos que têm ideias próprias e pensam pela própria cabeça; quanto às pessoas já se vê, pelo seu próprio exemplo enquanto candidato oficial de quarta escolha do PS: quem foi o homem novo que ele e os demais responsáveis do Estado e do PS prepararam e ajudaram a afirmar-se para oferecer à esquerda e ao país a merecida renovação? nenhum coelho saiu de tal cartola, tiveram que usar o porco espinho, veja-se bem a adesão que consegue e a desunião que a sua propositura pelo PS causou à esquerda, onde nenhum candidato desiste apesar do franco (mas de duvidoso espírito democrático) apelo feito pelos mais altos responsáveis do PS!

E porquê a referência a Alfarrobeira? é de facto genial a lucidez de Eduardo Lourenço, de uma clareza exemplar - a divisão da esquerda, juntamente com a pobreza das respectivas propostas partidárias e falta de apoio institucional da única candidatura sem apoio partidário (de um cidadão, como manda a Constituição) acalenta a ideia de que a união à direita pode fazer a força de uma dinâmica vitoriosa!

É um conceito de leitura complexa e parte do pressuposto, psicológica e sociologicamente fundamentado, de que muitas pessoas preferem votar no candidato vencedor a experimentar estar do lado errado dos sucessos da política durante todo um ciclo, sabendo que a política é hoje implacável para com os perdedores, negando-lhes acesso a lugares e bem estares, tal como antes na guerra se eliminava ou escravizava os vencidos; por isso muitos eleitores sacrificam as suas convicções ou sequer a reflectir o suficiente para determiná-las com fundamento, optando por votar cínica mas pragmaticamente no candidato que antecipam como vencedor.

Por esta via, a divisão da esquerda pode fazer a esquerda perder ou perder-se.

É este o caminho que leva Eduardo Lourenço a Alfarrobeira - e Medeiros Ferreira, no seu artigo no DN, nada entendeu, esvaziando e confundindo como muitos a construção culta e hábil de um nosso grande pensador.

Quais luzes de D. Pedro? não era a isso que se referia Eduardo Lourenço!

Era a própria noção de autodestruição, sem tomar partido na antiga batalha nem equiparar - oh horror - qualquer dos intervenientes a nenhum dos actuais candidatos; também Medeiros Ferreira está perdido no tempo: como é possível comparar Mário Soares ao antigo regente afastado, diabolizado e trucidado pelo seu sobrinho e genro, depois que assumiu o poder o Rei D. Afonso V ?

E se fosse possível, que utilidade teria ? os conceitos civilizacionais (de que os dois contendores eram portadores, representantes ou vítimas) que então se degladiavam não servem de comparação ao mundo, aos dilemas e aos problemas de hoje... e como é que isso se encaixaria, apenas por raciocínio, numa eleição com seis candidatos? Soares é apoiado por um forte aparelho partidário, pelo partido que está no poder, usando e abusando da máquina, das armas e de figuras do Partido, do Governo e do Estado, beneficiando de meios avultados logísticos e financeiros - o infante D. Pedro estava dessapossado e, pelo contrário, era o Rei que detinha o poder, os meios e as armas.

Que raio de comparação, mero lapso ou monumento à ignorância e à ligeireza na utilização da bandeira inimiga pode resistir a um mínimo de análise, caso a mereça por parte de algum exegeta mais dedicado à pedagogia que a perder tempo com a política de tais políticos argumentadeiros, mais papistas que o Papa, como Medeiros Ferreira ao tentar por na boca de Eduardo Lourenço o que este inteligentemente não disse nem quis dizer.

De todo o modo, quer o bom argumento e excelente raciocínio de Eduardo Lourenço quer o azarado dislate do glosador incidental falham na explicação do actual estado da campanha presidencial - e oxalá não se concretize o mau agoiro de nova Alfarrobeira do país ou da esquerda.

Na realidade, a candidatura de Manuel Alegre vai ganhando adeptos e entusiastas na proporção com que Cavaco Silva perde a tal dinâmica a olhos vistos todos os dias.

E as pessoas vão a pouco e pouco lembrando que ainda estão a pagar segunda e terceira vez as auto-estradas de duas faixas inauguradas na véspera de cada eleição e logo refeitas e depois alargadas com que Cavaco Silva desperdiçou as fortunas que Portugal recebeu da Comunidade Europeia durante os seus Governos, era Mário Soares Presidente. E essa memória faz pensar melhor, se calhar não basta dar o voto ao mais presumido que presumível vencedor antecipado.

Talvez estejamos perto de uma dimensão de retorno dos pragmáticos cínicos à realidade da escolha racional e afectiva do melhor candidato - se os tais eleitores (e são muitos) que se colocam sistematicamente do lado que antecipam como vencedor (e só por isso votam nele) começam a hesitar ou mesmo a perceber que Cavaco Silva pode não ganhar, então dedicar-se-ão genuinamente à escolha do seu candidato preferido, repartindo-se por outros ou pelos vários candidatos, esvaindo-se afinal a dinâmica de vitória do candidato inicialmente percebido como vencedor.

Quebrada essa barreira, Cavaco Silva poderá ser deixado à sua sorte na segunda volta.

E aí renasce o sonho e enterram-se as Alfarrobeiras!!!

Pois numa segunda volta toda a esquerda apoiará Manuel Alegre, que eventualmente passará a contar também com os tais votantes sistemáticos no possível vencedor - volta-se o bico ao prego!!!

É na semente do sonho que estamos hoje!!!

Como não pode ser maior, Portugal tem que ser melhor: mais livre, justo e fraterno!

Vamos pregar um Alegre susto ao Cavaco?

E mudar Portugal !!!




observacoes sao bem vindas

Anexo: os textos sob comentário
(não tive tempo de o fazer mais sintético nem de encontrar os links)


O tempo de Mário Soares, por Eduardo Lourenço (excertos),

«A campanha eleitoral não tem sido exactamente aquele torneio político exemplar que alguns idealistas impenitentes sonharam. Faltou-lhe paixão e sobraram escusadas flechas em forma de boomerang. [...] Trazer para esta sociedade, mais do que nunca sociedade de espectáculo, o eco da antiga paixão portuguesa, quer a recalcada do antigo regime, quer a exaltada e exaltante das duas décadas após Abril, era uma aposta arriscada, para muitos perdida e, em todo o caso, objectivamente quixotesca. Filho desses dois tempos, de que foi actor político precoce e, depois, personagem histórico, Mário Soares ousou trazer de novo para uma arena pública, já longe desses tempos turbulentos, essa antiga paixão política, sem querer saber se estaria ou não fora de estação. Passada a surpresa, esta audácia quase juvenil do antigo Presidente da República foi recebida com cepticismo por muitos, com sarcasmo por outros e, sobretudo, como uma ocasião inesperada para ajustar contas antigas e menos antigas com o homem que, melhor do que ninguém, de entre os activos, se identificou e é identificado com a Revolução de Abril e, em particular, com o tipo de democracia que ela instaurou em Portugal. [...] O mundo é que não é exactamente o mesmo mundo onde essa aventura pessoal e transpessoal foi possível. E esse mundo tinha de mudar, não o homem Mário Soares, mas a imagem dele no espelho alheio. O mesmo homem que, em tempos, passou entre nós como “o amigo americano” quando isso significava que o destino da nossa frágil democracia implicava alinhamento com a primeira das democracias ocidentais, aparece, hoje, aos olhos dos que têm interesse em cultivar essa vinha, como “antiamericano”, o que é, naturalmente, ainda mais simplista do que a antiga etiqueta. A única verdade desta valsa ideológico-mediática é clara: o antigo mundo que foi, durante décadas, o do horizonte da luta política de Mário Soares, funciona em termos de repoussoir — e Mário Soares, mais fiel aos seus ideais de sempre do que se diz, aparece, em fim de percurso, mais à “esquerda” do que nunca o foi. [...] Este tempo de Mário Soares não é apenas o tempo de Mário Soares. É o de várias gerações que, como ele, num mundo então histórica, ideológica e culturalmente dividido entre “direita” e “esquerda”, não apenas no Ocidente mas à escala planetária, escolheu um campo, numa época em que não escolher era ficar fora, não apenas do combate político, mas do combate da vida. É inócuo e só na aparência, prova de imaginária lucidez, pensar que esse comportamento releva de uma versão simplista e maniqueísta do mundo. Essa era a textura do mundo e da história que nos coube viver e só quem pretende viver fora deles se imagina sobrevoá-los como os anjos. É uma bela aposta a de Mário Soares, perdida ou ganha. Com a sua carga romanesca e a sua trama paradoxal. Mário Soares não é — nem a título histórico, nem ideológico — toda a esquerda portuguesa, mas nunca foi mais representativo dela, da sua utopia e das suas inevitáveis miragens, do que hoje, quando, aos oitenta anos, se apresenta como alguém, dentro dessa escolha, susceptível de incarnar ainda, melhor do que ninguém, essa velha aposta que entre nós nasceu com Antero e teve em António Sérgio, entre outros, as suas referências culturais, infelizmente mais vividas com sugestões poéticas do que propriamente políticas. Dizem-me que os dados há muito estão lançados e mesmo que os jogos estão feitos. Não o duvido. [...] Os seus adversários neste combate inglório e soberbo foram sempre outros. Não só os que se lembram do seu militantismo juvenil, como os que não esquecem a sua conversão definitiva ao socialismo democrático, mas, sobretudo, os que nunca lhe perdoaram o ter lutado pela democracia em Portugal, antes e depois de Abril. É isso que a verdadeira direita não esquece. É muito mais gente do que se supõe. É a mesma que põe na sua conta, como uma mancha indelével, a absurda culpa de ter “perdido” uma África que ninguém “perdeu” senão ela. [...] A esquerda não o traiu, nem ele se traiu nela. O drama é que essa esquerda de que pela última vez se faz paladino é, ao mesmo tempo, uma realidade — embora ideologicamente recente — e uma quimera. O problema da esquerda nunca foi a direita [...] mas a esquerda mesmo como pura transparência da história. A esquerda, sendo em intenção mais virtuosa, não é menos opaca, no seu angelismo imaginário, que a mais obtusa direita. Sobretudo quando não se dá conta disso. Em alegoria caseira, estas nossas eleições tão consensualmente democráticas, ilustraram com suavidade à portuguesa esta fatalidade. O combate no interior da nossa suicidária esquerda foi, à sua maneira incruenta, uma espécie de Alfarrobeira política. Talvez algum cronista, no futuro se inspire nela para nosso ensino inútil. Ou um poeta. Mas não terá Mário Soares.»

Eduardo Lourenço desvenda , por Medeiros Ferreira
Histórico artigo, o de Eduardo Lourenço hoje no Público. A Alfarrobeira política para onde a esquerda caminha em losango permeável só será evitável se o eleitorado a salvar. Escusado dizer que quem personifica as luzes que o infante D. Pedro transportava para Portugal é, hoje mais do que nunca, Mário Soares. Como escreve Eduardo Lourenço Mário Soares nunca esteve tanto ao serviço da esquerda. E houve quem quisesse perturbar e ocultar isso com palavras e obras.
Mas a mais sonora palavra será a dos votantes.